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DA MEMÓRIA DAS COISAS

Às vezes, não raro, dou por mim a pensar nas coisas. Penso no dia que começou, se for de manhã. Penso na noite, se for de tarde. Penso em quase tudo e não penso em nada ao mesmo tempo. Por vezes, nessas alturas em que estou a pensar nas coisas que foram, nas que não foram, nas que podiam ter sido e nas que foram, mas não aconteceram da maneira que gostaria, surge um lapso de memória. Visualizo uma planície que é interrompida e substituída por altos edifícios de uma cidade que parece agressiva, mas não o é, e fecho os olhos pensando em que dia da semana se podem comprar, na cidade, os vegetais que são cultivados na planície.

A ESTAÇÃO

Entrei na estação, duas estações acima da estação de saída. Era uma estação de comboios já antiga, rodeada de um manto de neve que transformava toda a rua num longo caminho branco e gelado, escondendo debaixo o seu manto verde de relva que adormecia gelada sob o cobertor forçado. Tirei o bilhete na máquina automática e sentei-me na sala de espera, aquecida e despida de qualquer enfeite na parede. Lá dentro, dois longos bancos de madeira que deixavam que o sol, entrado pela janela, se sentasse ao lado de todas as pessoas. A estação era fria e ao mesmo tempo, muito quente no seu interior.

DOIS PEIXES NO AQUÁRIO

No apartamento, decorado em estilo minimalista, de bom gosto visto no IKEA, Madalena tinha tudo arrumado, exceto o quarto dos miúdos, porque esse não o conseguia manter em ordem. Na sala, apenas um sofá grande, uma chaise longue, um tapete com riscos abstratos, um móvel comprido de televisão, a respetiva televisão em cima, uma janela com cortinados, também eles de desenhos abstratos a lembrar que aquela casa era decorada com bom gosto.

A TASCA

O Manuel entrou na tasca da aldeia num dia de chuva e de vento. Estas alturas do ano eram cheias de vento, frio e água que caía dos céus como se alguém a estivesse a despejar a partir de um daqueles baldes chuveiro que Manuel usava naquela divisão da casa, que era como se fosse uma casa de banho. A sua mulher, Antónia, aquecia a água à lareira e, nesse balde, dentro do alguidar, Manuel tomava banho aí de oito em oito dias, porque o processo era moroso e complicado.

CINCO ESCUDOS

Mariazinha ia fazer o exame da quarta classe dali a um mês. Morava num monte perdido no meio da Serra do Caldeirão a que davam o nome de Lontra, talvez relacionado com o animal em si que, até há pouco tempo atrás, fazia parte destas serranias. Mariazinha vivia com os seus pais e irmãos. E eram muitos. Não tinham eletricidade. Estrada de alcatrão e saneamento básico eram desconhecidos também. Aliás, não fariam ideia, por muitos anos, do que isso poderia ser. Nunca tinha sido até aí e aquelas coisas que nunca vimos, nunca conseguiremos imaginar o que são até que alguém registe a patente da invenção. Já tinham inventado a eletricidade neste mundo, mas lá ainda não se sabia o que era.

OS GIRASSÓIS DE SAIGÃO

Cheguei a Saigão, que hoje já não se chama assim. Hoje é Ho Chi Minh. Cidade com o nome do fundador do moderno Vietname. Lembro-me e recorro ao nome Saigão à luz daquilo que escreveu Marguerite Duras. Nos tempos da presença francesa, uma história de amor n´O Amante.

TRAÇADO GEOMÉTRICO

Um homem caminhava com o guarda-chuva a evitar que as poucas gotas que começavam a cair o molhassem. Caminhava envergando um sobretudo azul escuro e com o pensamento em coisas urgentes que o levavam ao destino. Debaixo do sobretudo um fato, impecavelmente limpo a seco. Na rua onde caminhava viam-se desenhados em cubos claros e escuros coisas várias que podiam fazer viajar a nossa imaginação.

TEMPO E PARALELOS

Nos meus 35 Anos, 11 Meses e 10 Dias, terei agora 431 meses, 13128 dias, 315084 horas, 18905094 minutos e 1134305671 segundos de vida, à hora que escrevo. Contabilizarmo-nos é sempre um exercício interessante. Ajuda-nos a ter noção de nós próprios, a avaliarmo-nos quantitativamente ao mesmo tempo que enquadramos a nossa vida qualitativamente naquilo que contamos. Outros há que terão muitos mais anos do que eu. Muito mais experiência no caminho percorrido e nas viagens das nossas vidas. Cada dia que passa, cada hora e cada segundo é uma nova aprendizagem.

NASCIMENTO |

"O dia pertencia ao último mês do ano, esse mês em que começa o Inverno e se sucedem geadas e frio, em que as lareiras aquecem as casas e as chaminés emanam fumo e enchem os céus, confundindo-se com as nuvens. Parece que poderia ter sido hoje, neste mesmo dia em que se conta este pedaço de história, mas não… aconteceu há muito tempo, tanto tempo quanto as palavras que contam histórias.

PARTIDAS

Nos aeroportos, nas estações de comboios, na nossa vida, em todos os lugares que conhecemos, entramos, há sempre duas portas. Podem ser a mesma, mas são diferentes no momento em que as transpomos. Neste dia em que escrevo, vejo duas. Uma diz partidas e a outra mostra chegadas. Parto de um sítio e chegarei a outro lugar. Para mim, como para qualquer um de nós, não será sempre aquele que planeei nos meus desejos, nas minhas vontades. Será aquele onde tenho de ir, aquele onde devo ir. O lugar. Neste momento, o meu lugar.

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