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SAPATOS

Uma tinha uns sapatos meio esquisitos calçados, cada um em seu pé trocado. Outro tinha umas botas de cabedal, aspeto usado, meio gasto, meio cansado. Outro tinha botas de trabalho, cimentadas, com um ar de biqueira de aço.

Nisto, as minhas sapatilhas, azuis com cordões alaranjados, passavam meio, e talvez não, despercebidas. Pois, eu bem as olhava e pensava cá para mim que a escolha podia ter sido menos irreverente. No fundo, pensava mas discordava. A escolha tinha sido consciente e até estava contente.

TINHA A MANIA DOS VERBOS

O marafado do gaiato era esperto e ligeiro como as cobras. Andava sempre à cata de conseguir saber mais e de fazer melhor. O marafado do moço, ou o moço marafado, era da cidade. Tinha a esperteza e a sageza de quem convive há muito com o desenrascanço. Podia ter-lhe dado para pior, podia não saber muito na escola. Mas tinha a escola da vida.

A ALBARDA

Aquilo era uma cidade cosmopolita, cheia de gente em movimento, lojas e lojas, umas grandes e grandiosas, outras pequenas e gourmet. Aquilo era uma cidade em movimento, um não parar de gente que sempre apressada, nunca parecia contente.

CASCAS

Estavam sentados à volta de uma mesa de tampo de mármore e pernas de ferro ferrugento, com os pés de borracha. À sua frente, uma meia dúzia de minis e um monte de cascas de amendoim e tremoços. Sentavam-se todos à volta da mesa com o cerimonial de comensais em banquete real mas comiam caracóis e alcagoitas e bebiam minis em vez de ostras, caviar e champagne.

REVISTAS

A Dona Giralda apressou-se a sair de casa naquele dia. Bem, naquele dia e todas as semanas no mesmo dia, à mesma hora. A Dona Giralda, filha do Senhor Giraldo, senhorio de muitas casas na vila, mas já falecido há muito anos, era uma senhora que, sem nunca ter casado e sem filhos, vivia sozinha no casarão, com a ajuda da Dona Rosário que sempre a acompanhara toda a vida, como governanta da casa.

MUTAÇÕES

Acordei, sobressaltado e atarantado com um pesadelo. Imagens passaram na minha mente quando tinha os olhos fechados e não via. Criei ideias na minha cabeça que não sei como foram lá parar. As coisas que não tinham nexo ou não pareciam reais moldaram-se em figuras bizarras e, quando o sobressalto me acordou, como se fosse a cair num precipício. Já vos aconteceu? Foi estranho. Os pesadelos e os sonhos são a parte estranha de nós que só com os olhos fechados deixamos libertar-se.

FILOSOFIA DAS COISAS

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Duas coisas nunca são iguais e a filosofia vai muito mais além. Bem, será porventura errado falar em coisa. É vago e disperso. Há nas coisas, a que é uma e a que é a outra, uma utilidade subjacente. Tudo isto se concretiza num grande saco de penas, uma almofada.

CEBOLAS

Hoje de manhã, aí por volta das nove horas, ia no metro em direção ao centro de Nova Iorque, metro cheio, gente de todo o feitio e dei por mim a pensar. Não raro penso quando estou sozinho e estou-o muitas vezes. É bom pensar, concordar com e discordar de. Perdoe-me lá o uso da preposição no final da frase, mas há vezes em que a própria gramatica nos intriga e faz pensar porque é que em papiá kristang se chama ossulíngua. Haverá uma explicação tão certeira como a de muitas outras coisas cuja explicação é tão evidente e não obstante nos escapa.

AS FIGURAS DE CERA

O tempo passa a fugir ou a correr, como preferirem. As coisas que o tempo ajuda a passar a fugir ou a correr não são nem mais nem menos do que um pequeno lago cheio de água que seca no verão e se enche no inverno. Com as primeiras chuvas vêm as primeiras vidas a nascer lá dentro. Os girinos vão crescendo e mutam-se para outra coisa. As pequenas poças de água são fonte de vida.

O CESTEIRO

As mãos do Ti Feliciano Costa eram envelhecidas e gastas pelo tempo. Eram mãos deformadas pela artrose e gretadas do frio e do trabalho. Os seus dedos, grossos, já não se endireitavam. A imagem mais clara que tenho de si é a de um homem envelhecido, cansado, curvado pelo tempo, que se sentava numa cadeira de madeira em frente à porta da velha casa de taipa, ao lado da ribeira, onde a mesma curvava e que passava a tarde a manusear o vime, fazendo cestos de todo o feitio.

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