16 Janeiro 2021      14:02

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Universidade de Évora quer sequestrar CO2 para combater as alterações climáticas

A Universidade de Évora (UÉ) acabou de dar um passo assinalável no combate às alterações climáticas após a realização de um estudo onde foram identificados potenciais locais para instalações-piloto de armazenamento geológico de CO2, uma tecnologia que evita a libertação para a atmosfera do dióxido de carbono produzido pelas indústrias dos setores electroprodutor, siderúrgico ou cimenteiro.

Com um orçamento superior a 10 milhões de Euros, o projeto PilotSTRATEGY - CO2 Geological Pilots in Strategic Territories, coordenado na UÉ por Júlio Carneiro, investigador do Instituto de Ciências da Terra (ICT) e professor no Departamento de Geociências, foi recentemente selecionado pela Comissão Europeia (CE) no âmbito do programa Horizonte 2020

O projeto consiste na injeção de um gás no subsolo, a grandes profundidades, onde fica sequestrado nas rochas de forma permanente. As consequências são duplamente vantajosas para o ambiente; por um lado, reduzem-se diretamente as emissões de gases com efeito de estufa, por outro, contribui-se para uma economia circular, uma vez que o CO2 capturado pode ser reutilizado na produção de metano ou de combustíveis sintéticos, entre outras aplicações.

O armazenamento geológico de CO2 pode vir assim a tornar-se numa arma no combate às alterações climáticas.

Júlio Carneiro explica que o armazenamento geológico de CO2 (uma componente das tecnologias CCUS- Captação, Utilização e Armazenamento Geológico de Dióxido de Carbono) “baseia-se na devolução do carbono à sua origem”, entendida como a utilização de formações geológicas como locais seguros para o armazenamento de CO2 capturado em grandes fontes estacionárias, destacando-se as cimenteiras, termoelétricas, refinarias e outras. O armazenamento geológico “evita a libertação para a atmosfera do CO2 produzido por aquelas indústrias, pois o gás é injetado no subsolo, a grandes profundidades, onde fica sequestrado nas rochas de forma permanente”.

Mas como pode este processo enquadrar-se nas tecnologias de mitigação das alterações climáticas?

O cientista da Universidade de Évora revela que este sistema permite “aos sectores industriais e electroprodutores reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa” esclarece o investigador, acrescentando que as tecnologias CCUS “contribuem também para um sistema de economia circular, uma vez que o CO2 capturado pode ser reutilizado na produção de metano, de combustíveis sintéticos e em várias outras aplicações”; por exemplo, “no sector cimenteiro cerca de 2/3 das emissões resultam do próprio processo de produção do cimento e não da utilização de combustíveis fósseis, não podendo, por isso, ser evitadas através de uma transição para fontes de  energia renovável”.

Também a Estratégia Nacional do Hidrogénio, recentemente aprovada, “reserva um papel significativo para as tecnologias CCUS, pois perspetiva um papel importante para os combustíveis sintéticos, produzidos a partir do hidrogénio e de CO2 que deve ser capturado em grandes fontes estacionárias” avança ainda o professor da Universidade de Évora.

O projeto é liderado pelo instituto francês BRGM- Bureau de Recherches Géologiques et Minières, e envolve dezasseis (16) instituições públicas e privadas de sete países - França, Espanha, Portugal, Grécia, Polónia, Alemanha e Reino Unido - sendo que em Portugal cabe ao ICT da Universidade de Évora, em parceria com a GALP e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICC-UL) o desenvolvimento dos trabalhos.

O PilotSTRATEGY é multidisciplinar, com uma forte componente no âmbito da análise social, o que implica informar e auscultar os cidadãos, bem como todas as partes interessadas relativamente a matérias em estudo. Esta componente pretende analisar os fatores que influenciam a aceitação pública desta tecnologia de forma a desenvolver metodologias de informação e de envolvimento das entidades regionais (públicas e privadas) no planeamento das instalações-piloto.

A academia alentejana é ainda pioneira na caraterização do potencial de armazenamento geológico em território continental e através do Instituto de Ciências da Terra (ICT) e do Departamento de Geociências, desenvolve investigação nesta área desde 2009, tendo liderado ou participado em praticamente todos os estudos relevantes sobre a tecnologia CCUS realizados em Portugal.

Os projetos KTEJO (2009-2010), financiado pelo QREN, e COMET (2009-2012), financiado pelo 7ºPQ, permitiram efetuar a primeira caraterização do potencial de armazenamento geológico em território continental, quer na zona emersa, quer na zona offshore.

O projeto CCS-PT (2014-2015) produziu o Roteiro Nacional para implementação na Captura e Armazenamento de CO2 pela indústria nacional.

O projeto InCarbon foi desenvolvido em parceria com o LNEG e procura avaliar o potencial de utilização de rochas máficas e ultramáficas na região do Alentejo para o armazenamento de CO2 que possa vir a ser capturado em instalações industriais localizadas no Sul de Portugal. O projeto STRATEGY CCUS, que para além do ICT integra os parceiros nacionais DGEG, CIMPOR e U. NOVA, estuda a implementação da tecnologia em oito zonas promissoras no Sul e Leste da Europa, incluindo a Bacia Lusitaniana em Portugal, na zona entre Setúbal e Figueira da Foz.

 

Imagem de revistagalileu .globo.com

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