24 Outubro 2020      13:23

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Única

Esta semana fala-se de um ser único. Era tão singular que só tinha uma célula. Era unicelular e, por isso mesmo, muito pouco interessante. Muito pouco não. Nada interessante. Chamava-se Ameba e não se passava nada com ela. Não pensava, não andava, não cantava. Falar, também não falava. Que eu saiba, nunca fez um telefonema aos amigos, nem menos se dignou a mandar prendas a nenhum deles. Também não tinha braços ou pernas para o fazer. Gostava que a ameba, esse ser único pudesse ter muito mais para contar e poder dar-vos maravilhas sobre a sua existência.

Não não há nada a dizer. Era unicelular. Um dia evoluirá e transformar-se-á em algo interessante e cujas aventuras poderei contar. Hoje não.

Assim sendo, e não havendo mais nada a dizer sobre a ameba, vou falar-vos de um piolho que vivia na cabeça de um careca e cujo desporto favorito era fazer patinagem artística.

Já tinha sido costureiro quando o homem onde tinha o seu ringue de patinagem tinha cabelo. Como o cabelo foi desaparecendo, não se sabe se pela crise económica ou se provocado por alguma pandemia, o negócio de costureiro foi deixando de render e os piolhos vizinhos deixaram de comprar pantufas e casacos e luvas de piolho. Já nem as pulgas que de vez em quando apareciam a saltitar, estavam a aparecer para comprar esses produtos.

Pensou em emigrar de cabeça mas tinha-se afeiçoado. Era como uma ligação de sangue.

Assim, pensou, pensou. Estar a viver numa cabeça ajudava. Já tinha em demasia casacos e meias, por isso o inverno descoberto não lhe fazia espécie. Pensou, e pensou mais um bocado e contacto direto com a cabeça do homem e teve uma ideia!

Ia comprar na Amazon patins de pulga e ia abrir um ringue de patinagem. (Sim, porque na Amazon encontra-se de tudo!) A ideia era genial. Tinha tudo para dar certo.

Acreditem quando vos digo que estava certo. Como se de uma romaria se tratasse, os piolhos de cabeças alheias começaram a saltar e a aproveitar a bela arte da patinagem que nos seus couros cabeludos não tinham possibilidade de fazer. Assim se construiu um negócio e assim floresceu uma nova arte.

O homem? Não se importava. Tinha comichão de vez em quando, achava estranho mas vivia bem com isso.

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