21 Novembro 2020      09:46

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O elefante que conhecia tudo

Seu nome próprio era elefante embora os amigos se dirigissem a ele como ele. Vivia em África e nunca tinha vindo ao Alentejo. Podia até já ter vindo mas não era o caso.

A família era numerosa. Havia elefantes grande e havia elefantes pequenos. Havia primos e tios e afilhados e coisa que tal.

Elefante tinha uma vida cheia. Já tinha vivido muito e nunca se esquecia de nada. Daí terá surgido uma famosa expressão de memória de elefante. Era mesmo assim este ele.

Nem doente, nos seus últimos dias, se esquecia de nada.

Teria aí uns 150 anos e era visitado todos os dias por uma média ponderada de 200 pessoas. Não eram mais porque a família restringia esse número e não deixava entrar mais ninguém. Havia um sistema de senhas.

A mulher de ele também tinha boa memória e mantinha as coisas como deve ser.

Toda a gente ia ter com ele e, mesmo tendo de esperar horas, sabia que sairia de lá com uma resposta.

Ele sabia e conhecia todos os acontecimentos desde o ano que nascera. Os rostos que com ele se tinham cruzado continuavam vivos na sua memória e dela não sairiam. Nem o bem, nem o mal. Assim era a memória de elefante. Assim era a história dele.

Mesmo os analistas financeiros e políticos dirigiam-se sempre a ele confirmando os dados que alguns alternativamente lançavam. Era o melhor fact checker. De facto, a verdade é um assunto cada vez mais precioso e só alguns a sabem destrinçar e tornar crua e nua.

Nem era preciso azeite e água. Ele sabia e conhecia tudo.

Mas ele sabia também que um dia as memórias ficariam com aqueles que as ouviram. Seriam eles que teriam a responsabilidade de manter a verdade é o conhecimento. Seriam eles quem continuaria a deixar os rostos e os acontecimentos no reino da memória.

Um dia ele morreu e com ele o conhecimento e toda a vida.

Como se uma biblioteca inteira tivesse sido consumida pelas chamas e desvanecida.

Haveria com o desaparecimento daquele que tudo sabia, o surgimento de factos alternativos? Haveria uma memória alternativa?

Ele que tudo conhecia sabia como agir e assim fez. Deixou em cada ouvinte parte da sua memória. Nas palavras e nas imagens que lhes transmitiu deixou neles o testemunho que era a verdade. A sua e a de todos porque essa, por muito que se queira, só há uma!

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