20 Junho 2020      12:15

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Lobo em pele de cordeiro

Nascido nas Beiras, João Lobo era um rapazinho ambicioso. Fez os seus estudos numa escola secundária pública e sempre foi o melhor aluno.

João Lobo nunca tinha tido uma nota abaixo de 95 por cento em todas as disciplinas. Quando terminou o secundário decidiu enveredar por uma região diferente do país. Foi para o Alentejo. A sua primeira preferência era a área mais calma do país e aquela que, na minha opinião, era a mais rica na vida académica, sem prejuízo de todas as outras. João Lobo fez economia em Évora e aí se tornou Doutor nos mesmos estudos.

Era Lobo, era perito em todos os estudos e, em qualquer discussão, conseguiria sempre fazer valer o seu argumento sem nunca ser indelicado.

João Lobo depois de acabar o curso foi para Lisboa trabalhar no mundo empresarial e real. Na empresa trabalhavam cobras, ratos, lobos, raposas e, como tarefeiros, cordeiros. O CEO da empresa era uma serpente. João Lobo submeteu-se a uma entrevista com ele, um bode e uma ovelha. Durante toda a entrevista, manteve a sua postura humilde e carinhosa que tinha aprendido nas Beiras.

Ficou aprovado e foi contratado ao fim de uma semana. João Lobo, nos primeiros tempos, observou... reuniu informações sobre o processo de funcionamento, perdeu como cada um dos empregados vivia e absorveu tudo. João Lobo não era parvo.

Era só um tipo demasiado centrado em si próprio, diziam alguns dos seus colegas.

Outros diziam que tinha um atraso... ninguém conhecia João Lobo. A única coisa que sabiam de si era que nos fins de semana ia passear a um centro comercial muito conhecido, ligado a um nome relativamente britânico e lá comprava roupa, especialmente roupa de cordeiro.

João Lobo vestia-se em pele de cordeiro. Ao mesmo tempo trabalhava na empresa. Começou por baixo, por tarefeiro e assim, usando a pele de cordeiro todos os dias... cujo uniforme toda a gente reconhecia e admirava, foi subindo.

João Lobo trabalhou 5 anos na empresa, aquentando todo o tipo de requisitos, faltas de educação e, diga-se, também teve excelente momentos. Porém, na crise económica, acho que ser somente o João Lobo já chegava. Analisou as perspectivas, como sempre tinha feito, pensou durante dias. Nesses dias todos a ética assaltava-o e não conseguia pensar em como contornar a situação.

A empresa onde trabalhava afundava-se e era necessário reverter o caminho. Mas seria João Lobo a conseguir? Talvez! Talvez fosse o seu destino salvar aquela empresa mesmo sendo tarefeiro.

Um belo dia, vestido de pele de cordeiro, pele da melhor qualidade, João Lobo pediu uma reunião ao dono da empresa e, conhecedor de todas as falcatruas que tinham feitas, chantageou o dono da empresa. Estupefacto, o homem que o ouvia nem sabia como responder. Era indescritível mas João Lobo sabia tudo! Vestido em pele de cordeiro, derrubou em dois tempos o dono em termos de argumentos. Tal foi até ao ponto de que a chefia da empresa, submetendo-se à chantagem, nomeou João Lobo como Diretor geral.

Feliz, Lobo em pele de cordeiro que continuava a ser agradável para todos, via o seu caminho sem obstáculos! Exceto o dia em que ia atravessar a estrada fora da passadeira e de nada lhe serviu a roupa de pele de cordeiro. Ser Lobo em pele de cordeiro só servia em algumas situações. Ali, foi atropelado, morreu no momento e, olhando la de cima, percebeu que, sendo Lobo, vestir-se de cordeiro só iria atrasar o destino porque, quando o fado toca o último acorde na guitarra portuguesa, tanto faz se estamos em pele de cordeiro, raposa, concha de tartaruga ou simplesmente nus, é um segundo entre o tudo e o nada.

João Lobo morreu naquele momento e ninguém reparou que sempre o foi e se vestiu em pele de cordeiro.

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