29 Fevereiro 2020      11:33

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Fevereiro

No início do mês de fevereiro, a mesa do almoço estava posta como sempre. Dois lugares, embora só um deles se ocupasse, todos os dias. Naquele pequeno apartamento da Rua de Moçambique, em Beja, a mesa era posta de modo a que duas pessoas se sentassem frente a frente e conversassem durante o almoço ou o jantar. O pequeno-almoço era tomado na cozinha mas tinha também dois pratos e duas chávenas. Uma delas permanecia sempre intocada, era semanalmente lavada e estava ali. Parada mas certa de ter alguma utilidade.

Aos olhos de Eloísa, a mulher que vivia naquele apartamento, havia uma razão para ali estar aquele lugar vazio. O motivo para ali estar só na cabeça de Eloísa se encontrava a razão. Durante as refeições, enquanto mastigava e bebia um copo de vinho, Eloísa ia contando o que tinha acontecido. Passava-se mais ao jantar, dado que ao almoço não havia muito tempo para estar a conversar.

O seu trabalho como notária tinha-a tornado numa mulher de rotinas, mas sozinha. Em Beja, quase ninguém a conhecia. Além de não sair muito aos fins-de-semana, nem durante a semana, não convivia também com os colegas de trabalho. Eram todos mais velhos e ela tinha sido destacada ali. O seu lugar de origem era a Madeira. Tinha, quando acabou o secundário, vindo estudar para Lisboa e não tinha regressado à ilha. Arranjou colocação em Beja e trabalhava nessa cidade como notária.

Ninguém conhecia nada da sua vida e ninguém lhe conhecia vícios ou companheiro ou companheira. Andava sempre sozinha. Poucas vezes jantava fora. Tinha um carro de dois lugares. Quando conduzia, ouvia música dos anos 80 e falava. As pessoas não viam ninguém ao seu lado, mas isso não a impedia de falar com alguém.

Eloísa tinha de chegar ao trabalho imperiosamente antes das 9. Às 8:55 pousava a sua mala na secretária, via o correio electrónico desse dia e do dia anterior, fazia uns telefonemas e despachava o serviço. Quase todas as manhãs tinha clientes e resolvia problemas. Na secretária dela só havia um lugar, ao contrário daquilo que acontecia na sua casa, na rua de Moçambique.

Ao meio dia em ponto saía para almoçar. Não morava muito longe e dava para ir a pé. Além da caminhada, sabia-lhe bem andar a pé. Aquecia o almoço que já tinha preparado ao fim-de-semana para toda a semana, comia e bebia um copo de vinho. Contava a sua manhã e punha a louça na máquina.

Durante a tarde, regressava ao trabalho as 14:00 e saía às 18:00. Ainda tinha tempo de passar no supermercado. Tinha o seu pré-definido. Ia la sempre e comprava sempre as mesmas coisas todas as semanas. Por vezes, quebrava a regra e comprava pickles. Adorava. Chegava a casa, fazia o jantar é o almoço, jantava, via um pouco de Netflix e dormia até às 6 da manhã. A vida era feita de rotinas. Até no fim-de-semana as tinha e preservava esse ritual.

Fevereiro começara bem, até dia 10, quando recebeu um e-mail e, do nada, disse a todos os colegas e poucos amigos que tinha que iria viajar até à Madeira por causa de um assunto pessoal. Dia 15, uma sexta-feira nesse ano, deixou o trabalho às 18:00, não fez o jantar como de costume e partiu na rede expressos com destino a Sete Rios. Daí, sabe-se que voaria no dia seguinte para a Madeira. Chegou à ilha dia 16 e entre esse dia e o fim do mês, é como se fosse um buraco negro. A única coisa que se sabe e que realmente deu um rumo completamente diferente à vida de Eloísa aconteceria no primeiro dia de março.

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