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Crónica Literária

Março

Os primeiros dias do mês passaram-se calmamente. Apesar de as noites ainda parecerem de inverno, os dias eram maioritariamente cheios de sol, com algumas nuvens à mistura, tanto em Beja como na Madeira. Nesta última, o tempo esteve mais quente.

A segunda semana do mês foi atípica e os campos ficaram ensopados com a quantidade de chuva que caiu. As barragens ficaram cheias e as primeiras sementeiras estavam a ser planeadas. Lá para meio do mês a primavera chegaria, sem timidez. As primeiras flores iam aparecer e tudo voltaria a nascer. O ciclo da vida assim o determinava.

Confissão ao meu amor (im)possível

Mil e uma desculpas ao meu amante desconhecido. A ti. Desculpa-me.

Creio que o meu amor tem ossos frios e se esconde como o vento entre as folhas de todos os jacarandá-mimosos.

Creio que o meu amante descansa o seu corpo numa cama com lençóis frios e eu não quero verter mais lágrimas, mas eu quebro a minha alma assim mesmo.

Apanhaste-me

Apanhaste-me. Deste-me a mão e eu saí da poça em que me mantia afogada. A luz decidiu revelar-se de novo. Passado tanto tempo; cumprimentei-a. Aqueceu-me. Transmitiu-me segurança e conforto.

Sorri.

Estava numa dança lenta e apaixonada com ela.

Ainda com a minha mão entrelaçada na tua, guias-me por novos caminhos; não que eu não os tivera conhecido antes. Mas agora, observo noutra perspectiva.

Explodo gratidão. Por ti. Por nós. Pelo que temos, e iremos ter.

Fevereiro

No início do mês de fevereiro, a mesa do almoço estava posta como sempre. Dois lugares, embora só um deles se ocupasse, todos os dias. Naquele pequeno apartamento da Rua de Moçambique, em Beja, a mesa era posta de modo a que duas pessoas se sentassem frente a frente e conversassem durante o almoço ou o jantar. O pequeno-almoço era tomado na cozinha mas tinha também dois pratos e duas chávenas. Uma delas permanecia sempre intocada, era semanalmente lavada e estava ali. Parada mas certa de ter alguma utilidade.

Janeiro

O ano começara no dia um, precisamente às zero horas. A festa tinha sido de arromba para todos, exceto para aquela mulher que se esvaía em sangue no quarto de um hotel a muitos quilómetros de casa. Podia ainda ouvir lá fora o fogo de artifício e as festividades, enquanto as lágrimas lhe corriam pela cara abaixo e no rosto traços de sangue marcavam a sua pele como se fossem rasgos e marcas de guerra, tribais.

Yoga

Yolanda gritava com toda a gente. Tinha o feitio mais execrável que havia à face da terra. Era polícia, tinha dois metros e não havia homem que a derrotasse quando entrava numa luta. Yolanda tinha nascido assim, bruta, pura, por esculpir e muito se orgulhava de assim ser.

Xisto

É de xisto que a minha pele é feita. É desta pedra dura mas que se divide e se adapta que a minha metamorfose existe. Dentro e fora dela, a minha pele despede-se em camadas como se lascas de xisto se tratassem.

Os meus olhos, ao acordarem no mundo e a terem consciência de mim, viram abaixo das árvores e plantas e terra, abaixo, as pedras de xisto que as acolhem, que as suportam. Tal como o xisto suporta o Alentejo, também o Alentejo me acolhe e me envolve.

Gastrologia

Chico Alfarroba dava todo um novo significado à palavra gastrologia. Nascido numa família de longa tradição de comilões, Chico Alfarroba tinha nascido completamente o oposto de toda a família. A alcunha ganhara-a por ossos do oficio. Mas disso falaremos adiante. Permiti-me caracterizar a família de Francisco António da Cruz Feliciano da Silva Guimarães Guerra e Gonçalves. A mãe e o pai tinham uma tasca no meio da vila.

Três peras

As palavras-chave são a coisa que nos ajuda a chegar a algum lugar, sem passar por caminhos tortuosos. Tantas vezes somos confrontados com situações em que aquilo que procuramos dizer ou transmitir não sai da forma como queremos. Isto pode ser um problema e é assim tantas vezes.

X (de xis) anos depois – Uma memória por quem não quer esquecer:

Ou: Instantâneo Moral.

Ou: Ode ao Desencantado.

Ou: Manifesto pela Inocência Perdida.

Ou ainda, em código: FKYU * S. (de Schäuble)

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