A decisão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) de internalizar a gestão do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves, e afastar toda a equipa técnica está a provocar alarme na comunidade científica internacional. Alexander Sliwa, curador do Jardim Zoológico de Colónia e conselheiro do programa ibérico há mais de 20 anos, classificou a decisão como “uma surpresa pessoalmente chocante” e avisou que a mudança “afectará gravemente o bem-estar dos linces”.
O especialista alemão defende que a substituição integral de uma equipa especializada num centro de reprodução de felinos selvagens não é comparável a uma mudança administrativa comum. “Leva muitos anos a atingir o actual nível de excelência, se é que alguma vez será possível recuperá-lo”, afirmou, sublinhando que parte do conhecimento crítico reside na observação diária dos animais e na interpretação correta dos seus comportamentos. “Quando intervir perante uma ligeira alteração comportamental? Uma interpretação errada pode levar à morte de alguns animais.”
O atual coordenador do CNRLI, Rodrigo Serra, afirma que a equipa nunca recebeu informação formal sobre a transição e garante estar “totalmente disponível para negociar uma solução legal, responsável e tecnicamente segura”. A Ministra do Ambiente distanciou-se da decisão, classificando-a como uma questão interna do ICNF. A UICN — União Internacional para a Conservação da Natureza emitiu também alertas sobre os riscos desta transição, e especialistas espanhóis criticaram a ausência de articulação prévia com as autoridades de Espanha, país parceiro no programa ibérico.
O lince-ibérico foi, há duas décadas, o felino mais ameaçado do mundo. O seu regresso à natureza — com centenas de animais reintroduzidos em Portugal e Espanha — é considerado um dos maiores sucessos de conservação da história recente europeia.
