As alterações climáticas ameaçam reconfigurar profundamente os ecossistemas marinhos e ribeirinhos europeus, colocando em risco tradições gastronómicas seculares. De acordo com os resultados finais do projeto europeu DiadSea — liderado ao longo de três anos pela Universidade de Évora/MARE em parceria com investigadores de Portugal, Espanha, França e Irlanda —, espécies migratórias emblemáticas como a lampreia-marinha, o sável, a enguia-europeia e o salmão estão a perder habitats nas regiões mais a sul do continente. Os dados apresentados publicamente na Universidade de Évora revelam que, sob os cenários climáticos mais severos, estas espécies serão forçadas a expandir as suas populações em direção ao norte, gerando uma substituição acelerada de comunidades biológicas nas águas meridionais.
Esta migração forçada para latitudes mais frias acende um sinal de alerta em Portugal, onde a lampreia assume o estatuto de joia da gastronomia tradicional. Sendo um animal anádromo — que passa a sua vida adulta no oceano mas ruma aos rios interiores para a desova —, a biologia da lampreia sempre ditou o calendário das comunidades ribeirinhas portuguesas, gerando autênticas rotas de turismo enogastronómico entre o Carnaval e a Páscoa. Pratos icónicos como o arroz de lampreia e a lampreia à bordalesa, cozinhados no próprio sangue com generosas doses de vinho tinto e especiarias, movimentam anualmente a restauração de regiões como o Minho, o Douro e o Mondego.
