Cerca de 40% das padarias tradicionais com forno a lenha existentes no Alentejo fecharam na última década, segundo dados divulgados pela SIC Notícias numa reportagem dedicada à sobrevivência de um dos métodos mais tradicionais de produção de pão na região.
O encerramento de dezenas de estabelecimentos evidencia as dificuldades enfrentadas por pequenas padarias artesanais, num setor marcado por processos de produção mais exigentes, custos elevados e dificuldades na renovação geracional. Apesar da redução do número de unidades, ainda existem padarias alentejanas que continuam a utilizar os tradicionais fornos a lenha.
Nestes estabelecimentos, o trabalho começa várias horas antes da abertura ao público. A preparação da massa, o aquecimento do forno e a cozedura exigem experiência e conhecimento acumulado ao longo de gerações. A quantidade de lenha utilizada, o controlo da temperatura e o tempo de permanência do pão no forno são alguns dos elementos que influenciam o resultado final.
O pão ocupa um lugar central na alimentação tradicional do Alentejo e constitui um dos ingredientes fundamentais de várias especialidades regionais, como as açordas e as migas. A utilização do forno a lenha está associada a um método de produção artesanal que confere características próprias ao pão, nomeadamente ao nível do aroma, textura e sabor.
A continuidade destas padarias enfrenta, contudo, vários obstáculos. Aos custos das matérias-primas juntam-se as despesas com energia, mão de obra, manutenção dos equipamentos e funcionamento dos fornos. Para pequenos negócios familiares, a necessidade de conciliar estes encargos com preços acessíveis torna a atividade particularmente exigente.
Outro dos problemas é a falta de sucessão geracional. Muitas destas padarias são empresas familiares que dependem de trabalho diário e horários prolongados, o que dificulta a continuidade dos negócios quando os atuais proprietários deixam a atividade.
A importância destas padarias ultrapassa a produção alimentar. O funcionamento de um forno a lenha envolve conhecimentos específicos que são frequentemente transmitidos entre gerações, desde a escolha e preparação da lenha ao controlo da temperatura e à adaptação dos tempos de cozedura.
Em várias localidades alentejanas, a padaria tradicional mantém também uma importante função de proximidade, sendo durante décadas um ponto de abastecimento regular das populações. O encerramento destes estabelecimentos representa, por isso, não apenas a perda de uma atividade económica, mas também o desaparecimento gradual de práticas e conhecimentos associados à cultura alimentar local.
A situação retratada pela SIC Notícias coloca em evidência os desafios enfrentados pelo setor no Alentejo. A subida dos custos, a transformação dos hábitos de consumo e a dificuldade em assegurar a sucessão familiar colocam em risco a continuidade de um modelo de produção que permanece ligado à identidade gastronómica da região.
As padarias que continuam a trabalhar com forno a lenha mantêm assim uma tradição que atravessou gerações, mas cuja sobrevivência dependerá da capacidade de garantir condições económicas e humanas para a sua continuidade.
