15 Julho 2016      15:29

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OS HEROÍSMOS DE SERENA E ÉDER

"MENOS ESTRANGEIRO"

Serena Williams é uma tenista estadunidense de 34 anos, cuja lista de prêmios não caberia nesta página. Ela é uma das maiores atletas de todos os tempos, considerados homens e mulheres desportistas.

 

Éder é um futebolista guineense de 28 anos, autor do golo que garantiu a Portugal a Vitória no Euro 2016. Evitarei escrever muito sobre ele, embora eu suspeite que você não o conheça bem, ou ao menos conhece apenas parte de sua personalidade.

 

O que estes dois têm em comum, além de carreiras brilhantes no esporte? Ambos são negros. E esta não é a única semelhança a uni-los.

 

Estes dois admiráveis atletas têm em comum também o descaso e o preconceito de parte da imprensa desportiva. Serena, por exemplo, não teve repercutida como deveria a sua conquista do 22º Grand Slam há uma semana, que a colocou no posto de melhor tenista da história. Em contratos de publicidade, ela fatura bem menos do que qualquer tenista branca, inclusive a russa Maria Sharapova, suspensa por dois anos por dopping.

 

Éder, naquele festivo domingo, teve que esperar um tempo até ser nacionalmente reconhecido como herói da partida decisiva do último domingo. Fiquei a acompanhar a repercussão do resultado da vitória de Portugal no Euro 2016 na imprensa nacional e me espantei com a falta de celebração de sua presença em campo. Aos poucos, Éder foi ganhando proeminência e sua participação decisiva passou a ser considerada. Contudo, uma narrativa sobre a sua biografia teve que ser desenhada, de modo a ele vir a se encaixar no conjunto de artigos e reportagens sobre a partida histórica.

 

Ao invés de ser simplesmente apresentado como um jogador inteligente e astuto, capaz de rapidamente definir uma partida muito difícil, Éder foi vítima de um racismo que pode nos passar despercebido, mas que é tão violento quanto qualquer outra expressão da xenofobia. O racismo, neste caso, está em se exigir de um atleta negro uma espécie de justificativa para a concessão da homenagem, para além do seu talento.

 

Serena, por ser mulher, sofre com uma violência a mais, uma vez que, além de racistas, somos machistas. Constantemente, comentaristas referem-se implicitamente à sua negritude como sendo o elemento que a coloca à frente das outras tenistas, num exemplo cabal da recorrente tentativa de atribuir ao físico supostamente mais “forte” do indivíduo negro qualidades que são, de facto, intelectuais.

 

Éder, por sua vez, somente pôde ser aceito pela opinião pública, a julgar pelo que tenho lido e assistido na imprensa, na medida em que seu passado de imigração precoce e de abandono pelos pais era realçado em inúmeras publicações. Foi deste modo que eu e, imagino, muitos portugueses também, vim a conhecê-lo. Ao contrário dos demais jogadores, eram sempre reafirmados os contornos tristes da sua vida.

 

A culminância deste jogo perverso ocorreu no programa matutino de uma emissora de televisão, na última quarta-feira, durante o qual uma longa entrevista ao jogador foi exibida. A entrevistadora, muito conhecida e poderosa, fez o possível para arrancar algumas lágrimas ao craque.

 

Porém, Éder parecia um homem feliz, com expressão facial leve, sorriso largo, carisma evidente. Sendo assim, ele não cedeu aos apelos sensacionalistas da insistente mulher. Ao invés disto, mostrou que sua trajetória pessoal não é tão traumática quanto se poderia supor, tampouco ele me pareceu um homem ressentido ou recalcado. Eu não passei a conhecer as suas impressões acerca da vida desportiva portuguesa, europeia e internacional, ou de suas perspetivas na carreira, nem as suas ideias sobre temas relevantes. O programa não se preocupou sequer em ressaltar a sua beleza ou a sua simpatia e, assim, torna-las num produto vendável, garantindo-lhe a possibilidade de vir a lucrar com sua glória e, principalmente, de influir sobre outros jovens portugueses.

 

Até agora, eu não notei qualquer esforço para torna-lo num modelo. Obviamente, com o tempo, isto deverá ocorrer. Porém, conseguirá ele alcançar sucesso equiparável ao de outros pares seus com a mesma qualidade atlética, mas brancos? Acho que não.

Isto, porque somos racistas.

 

Eu, como brasileiro, posso ousar apontar-lhe o dedo, leitor ou leitora, e dizer: você está ligado, como eu, a uma sociedade extremamente racista. Uma sociedade que trabalha para negar aos negros (e não apenas a estes) as mesmas possibilidades de ascensão do que as que estão acessíveis aos caucasianos. No Brasil, por exemplo, o “embranquecimento” é até hoje parte de uma pedagogia sobre nós mesmos, evidente nas artes e na dramaturgia, na publicidade, inclusive a oficial, e, pasme, nos livros didáticos.

 

Aos negros e negras desportistas, na falta de uma biografia miserável, reserva-se o olhar desconfiado, enquanto se forja uma tolerância frágil, disseminada em comentários e análises aparentemente inofensivos, mas carregados de preconceito. Em momentos de consagração, salvam-se os que possuem o espírito alegre e o orgulho inquebrantável de serem quem são. Como Éder que, durante a mencionada entrevista, não cumpriu o desígnio da entrevistadora e sorriu ao invés de chorar.

 

Créditos da imagem © FPF

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