14 Março 2018      17:13

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O desafio do novo CDS: Pragmatismo na Ideologia

«...) Depois de qualquer eleição a sensação dos políticos - quer tenham perdido quer tenham ganho - é a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltará apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a eleição seguinte.» Gonçalo M. Tavares in “ O senhor Kraus”

E é este, na dedução das palavras sábias de Gonçalo M. Tavares,  o grande desafio dos políticos da contemporaneidade para diminuírem distâncias entre o exercício do seu labor e a confiança desejável pelos eleitores para o sucesso na governação de um país.  E daqui teremos a base de partida para um projecto político válido, mas sobretudo consequente com as exigências actuais.

E assim, num ápice, faz-se uma associação entre esta constatação de Gonçalo M. Tavares e o último congresso do CDS, tal como ficou bem vincado na sua moldura humana, mas igualmente física, responsável pelo futuro de Portugal. De um lado, diziam, teríamos uma ala liberal, intitulada de pragmática, assente num substantivo e  alargado processo comunicacional ( de certa forma soa-me aqui à Escola de Frankfurt de Habermas), encabeçada por Adolfo Mesquita Nunes, por outro lado, uma massa mais conservadora, genuinamente ideológica e doutrinária, defendida por Francisco Rodrigues dos Santos presidente da JP e Abel Matos Santos. Haveria ainda uma terceira posição, não formalizada em moção global, que reclamava estratégia no discurso político e na sua acção distinta da actual, com foco no futuro e não fazendo apenas exteriorizações do seu mandato e, como consequência combatendo falsos unanimismos, propalada por Filipe Lobo d´Ávila.

Todos os citados espaços de opinião e de intervenção podem ter relativas nuances, mas é mais aquilo que os complementa do que faz divergir no afã de concretizarem o slogan  «O futuro está aqui» na casa CDS.

Pode a comunicação e imagem ser importante, a estratégia ser relativamente diferente e a aposta ser mais virada para o futuro, com argumentos concretos para seduzir eleitores e dotada de imagem menos unipessoal do líder, mas não é incompatível com a moção “Um Passo à Frente” de Assunção e Adolfo.

Pode a ideologia ser fundamental para a credibilização de um partido, de ideia de sociedade, de construção de um futuro, mas sem adaptação à realidade vigente torna-se inócua e desajustada das necessidades prementes.

No necessário empreender de medidas e acções que materializem uma redução do espaço existente entre a classe política e os seus eleitores, é necessário pragmatismo, é fundamental humildade de ouvir quais os seus grandes problemas, usar os meios institucionais até ao limite para solucionar o que é reclamado e de tocar nos temas da actualidade que os afligem. Mas atenção! Esta demanda não pode transformar-se num politicamente correcto, num populismo e casuística, tem que estar assente em firmes convicções e numa agenda própria (não aquela liderada pela comunicação social) e numa vasta equipa que valorize esse trabalho. Mas também deverá esta assentar num modelo ideológico que permita fazer o contraditório a todos os sistemas socialistas que vigoram no quadro partidário nacional e que merecem ter alternativa. Aliás, a nossa Democracia-Cristã oferece-nos duas grandes evidências, não é utópica como o Socialismo, e nasceu precisamente da realidade crua dos pós-guerra, não do empirismo. Adenauer, De Gasperi e Helmut Koll, por exemplo,  demonstraram largamente o alcance e a relevância da Democracia-Cristã para a edificação de uma sociedade mais digna, mais solidária, mais livre e próspera. Os grande democrata-cristãos europeus nunca tiveram receio de ostentar esta bandeira, nem certamente terá receio ou freios a liderança de Assunção Cristas para a colocar no carril certo e promover essa locomotiva em grande velocidade para o sucesso de Portugal. Confesso que muitas vezes foi esse receio que boicotou o alcance destes partidos como alternativas de poder, colocando-os à mercê de similitudes com partidos mais ao centro, e na dependência da desistência do voto útil. Muito do descrédito dado aos agentes políticos passa precisamente pela falta de retórica num processo abrangente de solução de sociedade, criando subsequentemente uma mão cheia de nada, de oferta banais que preenchem apenas e só medidas isoladas, de agenda popular, desenraizadas dum guarda-chuva doutrinário que lhes dê uma clara visão de sociedade e Estado ( O Bloco de Esquerda parece um bom exemplo). Têm um eleitorado razoável, mas oscilante e que não convence largas abstenções de que padecemos e que deveríamos combater.

Parece evidente que o grande desafio deste CDS e que parece vir seguramente a nascer pós Lamego é o de um partido que não tenha medo de assumir as suas convicções,  que seja frontal e assuma a sua génese e que seja pragmático e eficaz na sua defesa, que reuna cada vez mais uma militância firme, presente, informada e diligente perante a  sociedade. Houve certamente algumas batalhas perdidas no passado onde nem sequer fomos a jogo. Sentia-se pouca segurança, não perante o que defendíamos, mas sobretudo nos resultados expectáveis em resultado de uma opinião pública muito adversa. Com este pragmatismo na ideologia poderemos ir mais longe, dotar o partido de substância e o país de dignidade e prosperidade. Poderemos avançar sem receios em temas tão actuais  como o ambiente e sustentabilidade, na desmistificação da Cultura como pertença exclusiva da Esquerda, na descentralização de poderes que deve permitir uma maior relevância do municipalismo e de comunidades inter-municipais, como forma de mitigar clivagens territoriais e sociais, no combate à eutanásia e toda e qualquer bandeira anti-vida e atentatória da dignidade humana, de uma inédita e robusta acção que torne o Estado mais reduzido, mas mais eficaz e forte, dotada de uma fortíssima capacidade reguladora e fiscalizadora das actividades económicas, de um sistema de segurança social e pensões mais justo e liberal, de um sistema de ensino que não se permita retirar do topo das preocupações a meritocracia, ao contrário do que assistimos hoje onde verificamos um  tipo de “socialismo de turmas”, onde bons alunos são desprezados e desvalorizados, em detrimento de uma benevolência sem precendentes a alunos sem disciplina e sem interesse pelo percursos escolar, empurrados mesmo sem sua vontade para passagens administrativas de ano, promovendo a dualidade de critérios e puxando para baixo o grau de exigência. Mas poderemos avançar também para a reforma das forças armadas, dotando-as de meios necessários e compatíveis com um Estado de Direito, com uma verdadeira política de diáspora e lusofonia inexistente à data, para uma efectiva reforma do sistema político e eleitoral e ainda da aplicação de medidas de combate à segregação racial e étnica e integração de emigrantes e refugiados.

Todos estes temas, apesar de omissos no debate do congresso, têm no CDS uma leitura a montante ideológica e a jusante, deverão ser tratados de forma pragmática e eficaz. Já dizia o nosso patriarca, Prof. Adriano Moreira, « não é fome de segunda feira, é sábado que se tem de avançar». Acredito que assim será com todos os elementos que participaram neste grande congresso, sejam os mais divergentes, os pragmáticos ou os doutrinários. Afinal, honrámos a singularidade dos nossos congressos perante os restantes partidos (socialistas), permitindo-nos mesmo em circunstância de aclamação de líder, debater elevadamente o futuro do país e respeitando a liberdade individual de pensamento e opinião. A minha ilusão no futuro do partido é enorme, todos fazem falta e afinal, o denominador é comum para todos, vencer Portugal.

Imagem de capa de Isabel Santiago Henriques

 
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