Tribuna Alentejo
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Colunistas

Jean Genet – parte 1

A pureza de uma linguagem não se mede pela sua objectividade, mas pelo grau de honestidade facilmente pressentido do autor, por assim dizer.

Se houve autor que fez dessa presunção a regra criativa foi Jean Genet. Mal nascido, bem-criado por uma primeira família adoptiva, disruptivo desde a pré-adolescência, ladrãozito de meia-tigela com tendência para a vadiagem, e que de acordo com a mãe de uma segunda família adoptiva – com a qual esteve pouco meses –, imagine-se, gostava de usar maquilhagem. Por outras palavras, alguém que os demais olhavam de soslaio. Este pode vir a ser qualquer coisa, menos respeitável, ouvia-se frequentemente nas esquinas e igrejas próximas, umas com pior frequência que outras. Esteve preso várias vezes, o que parecia confirmar o tal olhar.

Depois veio o Discurso – As palavras, precisamente, foram a sua salvação. Tinha jeito para escrever.

Completou o seu primeiro romance na prisão. Chamou-lhe Nossa Senhora das Flores. Narrava as peripécias de alguém que se parecia demasiado com o escritor em causa. A dita honestidade, que não mais haveria de o largar. Crescer como um ladrão para viver íntegro através da criação artística. Não foi o primeiro nem será o último a levar a vida nesses termos. Poucas coisas se podem levar tão a sério como a obra de arte. A vida sem a arte não é a verdadeira vida, não nos termos do sapiens – qualquer animal respira e busca a sobrevivência, mas só uma espécie ri e chora em simultâneo.

 

Imagem de capa Une vie, une œuvre : Jean Genet, un monstre d’innocence, via YouTube

 

 

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