Tribuna Alentejo
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Colunistas

Henrique Raposo, o Alentejo, e o apocalipse zombie

Em 2005 saía “Terra dos Mortos”, o último filme de uma quadrilogia do, hoje falecido, George Andrew Romero, que raspava o tacho dos últimos tempos onde ainda era possível ter razoáveis receitas de bilheteira com a moda dos filmes sobre apocalipses zombie, moda que surge em meados dos anos 90 com os video-jogos do universo “Resident Evil”.

O filme até nem é cinematograficamente mau, é péssimo, vejam o trailer e entenderão o que quero dizer. Todavia, consegue ser filosoficamente brilhante, com uma mensagem político-social cada vez mais relevante nos dias de hoje. Esta dicotomia entre um desastre cinematográfico e uma mensagem brilhante são a prova de que um roteiro bem escrito e bem estruturado não garante, à partida, os patrocínios essenciais para financiar uma cinematografia à altura, mas isso são outros quinhentos.

Alerta spoiler! O filme retrata uma cidade, algures nos Estados Unidos onde uns anos antes havia ocorrido um apocalipse zombie. No rescaldo desse apocalipse, as elites milionárias da cidade ergueram uma barreira em torno do centro histórico para os proteger dos zombies, metade dessa barreira era uma muralha, a outra metade era um rio (os zombies tinham medo do rio!). Dentro desse centro histórico erguia-se um gigantesco e luxuoso arranha-céus, onde a elite milionária vivia com todos os luxos, e em volta desse edifício, viviam os restantes seres humanos em condições quase selvagens numa realidade brutal e violenta de luta por água e mantimentos. Tudo o que estivesse fora das muralhas, nos subúrbios, estava empestado de zombies. Mas como os anos foram passando, a cidade fechada ficou sem mantimentos, o que obrigava a que a elite organizasse milícias armadas para vasculhar e pilhar mantimentos nas zonas fora da muralha, para seu próprio consumo, deixando os humanos pobres sem água e sem comida.

O método das milícias era simples, sabia-se que os zombies ficavam encantados com fogo de artifício, enquanto houvessem explosões e luzes pelo céu nocturno, todos os zombies ficavam parados a contemplar, permitindo às milícias passar pelo meio sem serem atacados. Todos, menos um, havia um zombie que era imune ao encantamento, o “Grande Pai”, segundo o nome do personagem, e o Grande Pai a certo ponto começa a conseguir entrar na mente de todos os outros zombies e a conseguir fazer com que estes entendam que estavam a ser vítimas de uma patranha, e começam a organizar-se.

Às tantas, o Grande Pai decide atravessar o rio, provando aos restantes que era possível e que não havia que ter medo, todos o acompanham, invadem a cidade e instala-se o caos entre zombies, humanos pobres e elite milionária numa luta de todos contra todos. Para ser honesto, não me lembro do final do filme, mas é fácil de intuir.

No passado dia 4 de Março, Henrique Raposo escreve um artigo no Expresso com o seguinte título: “As musiquinhas alentejanas que escondem o Alentejo atrás do biombo”. Depois da publicação do artigo o Expresso publica umas frases soltas nas redes sociais e abate-se sobre o tema uma extensa ceara de indignados. E como não podia deixar de ser, eu queria saber se podia pertencer à ceara também e ter a devida legitimidade de açoitar com “CAPS LOCK” o Henrique Raposo. Mas fui confrontado com um problema. O artigo era exclusivo para assinantes do Expresso! Fui barrado pela fatídica “paywall” visto que a minha assinatura do Expresso expirou em Janeiro e eu, propositadamente, por razões de convicção, não a renovei para 2026. Lá vou eu ao quiosque na sexta-feira comprar o Expresso em papel para aceder ao código que me permitiria ler o artigo no exclusivo on-line, porque o artigo nem no jornal em papel vem.

Qual não é o meu espanto, quando acabo de ler o artigo, eu, alentejano nascido e criado, defensor da nossa sub-cultura, devoto da nossa culinária regional, e seguidor da nossa serena forma de estar na vida, não me consigo indignar, e pior ainda, concordo completamente com o argumento do Henrique Raposo, excepto com o tom sobranceiro com que afirma que os criadores das músicas não têm qualquer critério ou sensibilidade artística, ou não conhecem o Alentejo, aqui o Henrique cai na falácia da arrogância urbana e pisa completamente fora o terreno. Estes rapazes conhecem o Alentejo, seja quem canta, seja quem escreve, defendem-no e difundem-no com grande talento e habilidade para a arte, gostar ou não dela já é algo pessoal. São miúdos a fazer o seu caminho no mundo precário da arte, e isso merece sempre o nosso respeito.

Porém, em tudo o resto, o Henrique Raposo só acerta, seja nos exemplos que dá, seja na mensagem geral do artigo. Afirma que o “pop alentejano” é um produto de uma elite do litoral que ignora olimpicamente as dificuldades de vida seculares dos habitantes do Alentejo, e acerta; afirma que este estilo musical – promovido por uma elite milionária – romantiza um Alentejo fictício que não retrata as verdadeiras dificuldades dos seus habitantes, e acerta; afirma que esta elite ignora completamente o problema crónico de pobreza económica e de uma epidemia de problemas de saúde mental de pessoas que não têm como pagar um tratamento digno, que se afundam em depressões que terminam na mais alta taxa de suicídio em todo o país, e acerta; afirma que esta elite do litoral ignora totalmente o abismo económico entre as elites agrárias e o alentejano comum – numa região onde até há bem pouco tempo era normal um trabalhador comum falar para um chefe agrário de chapéu nas mãos, olhos no chão e cheio de medo – onde o trabalhador ainda é tratado por alguns patrões como um animal de estimação humano, um ser inferior, e acerta; afirma que a globalização económica nunca beneficiou esta região com a sua riqueza prometida, antes pelo contrário, só a esvazia das suas riquezas sem deixar nada às gentes desta região, que os substitui pelo vergonhoso trabalho escravo de trabalhadores asiáticos que reduzem os níveis salariais da região para níveis igualmente vergonhosos, e acerta. Qual fogo de artifício da Terra dos Mortos que deixa os zombies encantados com os clarões e rebentamentos, é isto que este estilo musical romantiza às ordens das agências que o promovem, clarões e rebentamentos que dão dinheiro, muito dinheiro. Dinheiro que não irá parar às mãos de nenhum idoso doente na Amareleja, que não vai fazer obras numa escola em Montargil, não vai reerguer as muralhas do castelo de Estremoz caídas com os temporais, nem vai ajudar nenhum habitante da baixa de Alcácer do Sal que tenha perdido tudo com as cheias de Fevereiro.

A crítica do cronista não é direccionada aos alentejanos, mas sim a uma certa elite que, em nome do lucro bruto, tenta pintar uma vivência que não corresponde à realidade de nenhum alentejano normal, não se pode dar destaque apenas às paisagens, à amizade, ao vinho, à gastronomia, ao vagar, à tranquilidade, à forma de estar, e ignorar os problemas e dificuldades gravíssimos que a região ostenta. A pobreza, os salários baixíssimos, os trabalhos sazonais, a precariedade, a péssima saúde mental, a baixa busca por cultura, fracos resultados escolares, fraca presença no ensino superior, a tendência para os radicalismos políticos de esquerda e de direita, tudo que, no fundo até são problemas nacionais, mas que nesta região se intensificam. Pintar uma imagem cor de rosa e alegre de uma região tão atrasada, pobre e cheia de problemas é contra a natureza das circunstâncias, não é por acaso que o símbolo maior da cultura alentejana é o cante, um estilo de música pesado, introspectivo, austero, que nasce fruto de um sofrimento secular e profundo, de cicatrizes passadas de geração em geração e que perfura visceralmente quem se recorda dos seus avós ao ouvir aqueles versos intensos, cantados por aquelas vozes gravemente poderosas, que carregam uma vida de sacrifício e luta. Mas até o próprio cante retrata uma realidade fictícia, porque a vida não é sempre miserável, nem é sempre cor de rosa como o pop alentejano a quer pintar.

O cante e o pop alentejano são o anjo e o demónio dos sentimentos de uma região, o pop é utópico, o cante é distópico, e onde é que a vida de um alentejano se situa? A resposta que me parece mais correcta é, no meio desses dois, algures numa zona cinzenta, onde uns dias são mais cante, e outros são mais pop, porém, nem um nem outro descrevem a totalidade do “ser alentejano”, servindo meramente para nos reavivar memórias, ou dar alento quando os escutamos.

A verdadeira crítica que Henrique Raposo deseja fazer aos alentejanos é a de que se revoltem e não se deixem encantar por este engodo. Desfrutem destas músicas, mas não se deixem consumir por elas, pois não representam a realidade e tentam esconder os nossos problemas atrás de uma cortina como quem atira areia para os olhos, ou fogo de artifício para os céus da noite escura. A mensagem é o que mais importa nisto tudo, não o mensageiro, e a mensagem é “não se deixem encantar por esta cortina forasteira que tenta esconder e perpetuar a vossa miséria e os vossos problemas, é uma armadilha, revoltem-se”.

Como o Grande-Pai da “Terra dos Mortos”, é preciso ver além da cortina, é preciso consciencializar os demais de que está ali uma cortina, mas, acima de tudo, é preciso ter coragem de atravessar o rio, irromper pela cidade, e lutar.

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