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Curiosidades

GARE, 10 ANOS DEPOIS

A  GARE (Associação para a promoção de uma cultura de segurança rodoviária) faz hoje 10 anos. Fomos conversar com o professor Adérito Araújo, Presidente da associação, para saber o que mudou em termos de segurança rodoviária e se mudou para melhor. Tem 66 anos, é fundador da Associação, Professor de Matemática e natural de Amadora. Por detrás deste projecto está um drama de vida que ficou fora da conversa. 
 
 
Tribuna Alentejo: A GARE comemora o seu aniversário. 10 anos depois, o que falta fazer na segurança rodoviária?

Adérito Araújo: Dez anos depois do aparecimento da GARE, em 11 de Abril de 2005, o que falta fazer em termos de segurança rodoviária continua a ser muito porque a forma mais eficaz de combater a sinistralidade rodoviária é a prevenção, e esta passa pela mudança de atitudes e comportamentos, o que pressupõe que as nossas crianças e jovens tenham nas famílias e nas escolas uma educação onde a cidadania ocupe um lugar muito mais importante que o que tem neste momento.

As infraestruturas estão melhores, as leis e a sua aplicação estão mais eficazes, os veículos estão mais seguros mas as questões relacionadas com os comportamentos dos condutores e dos restantes utentes da estrada continuam a ter grandes problemas.

A velocidade excessiva, os consumos e a condução ou as manobras perigosas continuam a ser as causas da esmagadora maioria da nossa sinistralidade.

O aumento do número de vítimas mortais nas cidades mostra também outros problemas relacionados a forma como as autarquias gerem de forma bastante heterogénea as questões da segurança rodoviária, escudando-se muitas vezes por detrás dos seus orçamentos municipais reduzidos, que podem explicar mas que não podem servir de argumento para não salvar vidas.

Tribuna Alentejo: A Gare tem desenvolvido uma série de projectos ao longo destes anos, alguns muito ambiciosos como o Road Park. Quais os projectos mais relevantes e como são sustentáveis?

Adérito Araújo: Seria fastidioso enumerar todos os projetos em que a GARE tem estado envolvida, assim como também seria difícil dizer quais foram os mais relevantes. No entanto, e de uma forma geral, tem sido muito importante na nossa opinião privilegiar o trabalho com crianças e jovens, no sentido trabalhar atitudes e comportamentos, sempre com a perspetiva de promover junto destes uma cultura de segurança rodoviária, inerente a uma cidadania responsável e a mobilidade saudável.

Como exemplo, consideramos que o nosso projeto alcokart foi, e ainda é, um dos nossos projetos mais relevantes, pelo número de jovens com que trabalhámos, pelo número de escolas e autarquias onde já estivemos, pela visibilidade que os grandes meios de comunicação lhe deram e até pelo reconhecimento internacional que já recolheu.

Por se estar a aproximar o Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada (15 de Novembro), desde 2004, ainda a GARE era apenas um grupo de cidadãos mobilizados pelas questões da segurança rodoviária, sempre se celebrou na cidade de Évora, envolvendo a rede ESTRADA VIVA e muitas organizações locais particulares e oficiais, este Dia Mundial que se celebra um pouco por todo o mundo desde há vinte anos e que a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu há 10 anos.

Deste empenhamento resultou que a nossa cidade é uma das poucas, senão a única, que tem um Memorial às Vitimas da Estrada, no Jardim da Memória, onde simbolicamente neste dia os familiares e amigos das vítimas da estrada depositam uma vara com uma mensagem para os entes queridos que desejam homenagear.

A sustentabilidade é um objetivo que deve estar sempre presente mas que deve ser encarado de uma forma muito especial, tendo em atenção que as questões da educação e da saúde muitas vezes só têm sustentabilidade a médio ou a longo e por vezes muito prazo. Assim, os custos associados a estes projetos têm que ser considerados investimentos, com poucas compensações financeiras a curto prazo.

Tribuna Alentejo: Com estradas melhores, um parque automóvel relativamente moderno e décadas a alertar para a segurança rodoviária, o que falha na prevenção da sinistralidade?

Adérito Araújo: Tudo o que ficou dito nas questões ajuda a entender o que falha. A prevenção da sinistralidade não se faz com muitas leis embora possam ajudar, não se faz com muitos forças policiais e militares na estrada embora estes sejam imprescindíveis para fazerem aplicar a lei e para apoiar pedagogicamente os utentes da estrada a entenderem porque ela deve ser cumprida. A prevenção da sinistralidade faz-se por todos e não apenas por alguns.

O envolvimento coordenado da educação, da saúde, da justiça, do poder autárquico, da comunicação social, das organizações cívicas é fundamental e desde há muitos anos que se sabe que tem que ser assim, pois já em 2005 as Nações Unidas publicaram uma resolução afirmando isto mesmo.

Tribuna Alentejo: Têm dados que nos permitam comparar o país com o resto da europa? Somos melhores ou piores que os outros em termo de sinistralidade?

Adérito Araújo: De uma forma geral, a situação melhorou bastante nos últimos dez anos. Usando um índice muito comum na Europa para medir a sinistralidade rodoviária que é o número de vítimas mortais por milhão de habitantes, verificamos que em 2005 Portugal tinha 119 vítimas mortais por milhão de habitantes enquanto a média europeia era de 93 VM por milhão de habitantes, isto é, menos 28% e em 2015 ficava pelos 59 VM por milhão de habitantes contra 51 VM por milhão de habitantes na média europeia, isto é, menos 16%.

Portanto ainda continuamos pior que a média europeia.

 

Tribuna Alentejo: 10 anos depois estão ou não superadas as expectativas iniciais?

Adérito Araújo: As expectativas iniciais de quem? As expectativas iniciais da União Europeia foram ultrapassadas porque o objetivo era conseguir em dez anos descer a sinistralidade rodoviária para metade. Para a GARE, as questões não se colocam desta maneira. Para uma associação como a nossa estes números continuam a ser elevadíssimos porque estão muito longe da sinistralidade zero e porque a análise destes e doutros números diz-nos que ainda há muito para fazer e que é urgente fazer e não se vê vontade política de o fazer.

 

Tribuna Alentejo: Uma mensagem final para todos quantos andam diariamente na estrada.

Adérito Araújo: A única mensagem para quem anda diariamente na estrada tem que ser esta: Quando conduz lembre-se que a culpa dos sinistros nem sempre é dos outros e por isso respeite e seja simpático para todos os utentes da estrada.

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