A Stet, empresa de equipamentos industriais que facturou 96 milhões de euros em 2025 e prevê crescer para os 120 milhões este ano, inaugurou esta sexta-feira um novo centro de capacitação em Beja, num investimento de seis milhões de euros. A escolha da capital do Baixo Alentejo não foi acidental — é o resultado de uma estratégia deliberada de descentralização que o director-geral da empresa, Tiago Isidoro, explica sem eufemismos: “Temos uma concentração muito grande nos principais centros económicos do país, Lisboa e Porto — é um erro gigante. O nosso investimento mais recente foi feito em Beja, a capital de distrito mais pobre de Portugal.” Para Tiago Isidoro, ir para a periferia, fazer bem e criar valor para a comunidade local significa “receber em dobro” — uma filosofia que contraria a lógica de concentração que tem marcado o investimento privado português nas últimas décadas.
O centro de capacitação responde a um dos maiores problemas estruturais identificados pelo gestor: a falta de talento técnico qualificado para operar equipamentos industriais avançados. Tiago Isidoro ilustra o problema com um exemplo concreto — um cliente que comprou duas máquinas no valor de 200.000 euros cada e as tem paradas por falta de trabalhadores habilitados para as operar. O centro pretende unir empresas, profissionais da indústria e universidades num espaço de formação que responda a esta carência, fixando quadros técnicos qualificados numa região que historicamente os tem visto partir para Lisboa, Porto ou para o estrangeiro. A previsão de crescimento da empresa é igualmente ambiciosa: Tiago Isidoro antecipa um ritmo de crescimento a dois dígitos para a próxima década, sustentado pelo maior ciclo de investimento público desde a Expo 98 — do comboio de alta velocidade às barragens, do novo aeroporto ao novo hospital de Lisboa.
Para Beja — que aguarda a autoestrada, que convive com rendimentos medianos entre os mais baixos do país e que viu o seu maior projecto de canábis medicinal terminar em insolvência — a chegada de uma empresa que investe seis milhões e declara abertamente querer criar valor para a comunidade local é uma das melhores notícias do outono de 2026. O investimento da Stet é também um argumento concreto contra a ideia de que o interior não atrai empresas: atrai, quando as empresas têm a visão e a coragem de ir além dos eixos Lisboa-Porto.
