Vivemos tempos difíceis. Aliás, desde o fatídico tempo do COVID, em 2019, que tudo se tornou muito mais imprevisível e assustador. Apesar das crises económicas que ciclicamente afetaram desde sempre as sociedades, em particular nos tempos modernos, sentimos hoje que o mundo, tal como o conhecemos, se converteu num lugar muito perigoso.
Dirão os entendidos que sempre foi assim, que os diferentes Estados e potências, ao longo do tempo, sempre lutaram pelo direito de supremacia, que olharam muitas vezes mais para os seus próprios interesses particulares, do que por relações de sã convivência. Há muitas páginas negras da história da Humanidade que deviam servir de exemplo para o presente e para o futuro.
Mas a Europa, em particular depois da II Grande Guerra Mundial, sempre foi um farol civilizacional, em que os valores humanistas da paz, da prosperidade e do desenvolvimento do Velho Continente, se assumiam como um exemplo e uma referência.
A criação da então CEE (Comunidade Económica Europeia) em 1957, depois de um conflito sangrento que assolou o continente, foi uma conquista que embalou a Europa para um inegável desenvolvimento e que fez com o os seus cidadãos, ao longo das últimas décadas, tivessem conhecido melhorias significativas no seu dia a dia, nos seus projetos e planos pessoais, nas melhores condições de vida e de emprego, na mobilidade e na esperança efetiva de um futuro melhor.
A Europa foi privilegiando a vertente social, o investimento, a livre-circulação, a união monetária e a economia como eixos fundamentais para o progresso, tornando-se potência de dimensão global, aperfeiçoando os regimes democráticos, defendendo o humanismo como valor fundamental, promovendo os direitos de todos, não obstante o seu credo ou raça, fortalecendo os laços fraternos entre os países europeus e ajudando todos os outros que, em diferentes contextos, necessitam a sua ajuda, em diversas áreas.
Esse contributo foi fundamental para que a Europa consolidasse o seu papel como farol orientador, como líder na defesa dos valores éticos e morais, resultado também da sua própria história. Havia líderes, que nesse tempo, punham a sua experiência ao serviço de todos, para a definição de políticas que promovessem esse bem estar dos europeus.
A Europa terá feito muitas coisas bem, mas esqueceu-se que a paz é um conceito muito frágil, que sofre constantes ameaças e pressões. Terá talvez adormecido à “sombra da bananeira”, ou dos chapéus de chuva da NATO e dos EUA. Valorizamos tudo, menos a questão fundamental que hoje nos passa fatura.
Infelizmente, passamos hoje pelos pingos da chuva no que se joga no xadrez mundial. Somos irrelevantes, verbo de encher, perdidos por entre os tweets e tik toks dos que nos governam, sem que sejam encontradas soluções para pôr de novo a Europa nos centros de decisão.
A velha Europa, com todos os outros problemas paralelos (demografia, integração, envelhecimento da população e economia menos pujante) vive hoje uma crise de liderança, em que todos parecem querer dar palpites (Comissão Europeia, Conselho Europeu, Parlamento Europeu), que fala a várias vozes, que tem inimigos no seu seio (como o caso da Hungria), que corre sempre atrás do prejuízo e que vê uma clara ameaça à sua estabilidade política, mais sentida no lado oriental devido à invasão da Ucrânia pela Rússia. Há fraquezas que saltam à vista, a cada momento…
As decisões têm que ser tomadas no tempo certo, antecipando cenários e prevendo os riscos, de modo a evitar problemas mais gravosos. A Europa hoje não faz nada disso!
Tudo certo. Apostamos sobretudo na tecnologia, na saúde, nas infraestruturas rodoviárias, no acesso à informação, no progresso, mas esquecemos que a nossa segurança é um fator primordial, evidência que hoje nos coloca numa situação de extrema vulnerabilidade e dependência.
Pensamos que a paz era um dado adquirido e foi essa mensagem que passamos aos mais novos. No entanto, como referi, o mundo não é um “mar de rosas”. Há sempre quem esteja à espreita para lançar o isco. Os períodos de falsa acalmia que por vezes vivemos tinham sempre lobos com pele de cordeiro debaixo dos nossos narizes, à espera do tempo certo para mostrarem aquilo que realmente são.
Os nossos “padrinhos”, que foram trilhando o seu caminho, não estão nem aí para nós. Se isto der ainda mais para o torto, para além da inflação, dos preços dos combustíveis e do aumento dos bens essenciais, seguramente não virão em nosso socorro. É tempo de abrir a pestana. A Europa necessita de um novo caminho. Precisamos defender-nos, sem ajuda de terceiros. Gostava de não pensar assim, mas a realidade dos nossos dias não me deixa alternativa…
