23 Janeiro 2020      17:39

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Do Reino de Prestes João a um renascido CDS

«Qualquer pessoa pode elevar-se acima das suas circunstâncias e alcançar sucesso, caso se dedique e tenha entusiasmo pelo que faz. » Nelson Mandela

Durante séculos o mito do Reino de Prestes João povoou o imaginário e até os interesses mais racionais dos reinos europeus, com especial ênfase para o reino de Portugal. Houve no processo de expansão marítima do então reino, a pretensão de encontrar este mirífico espaço, único reduto cristão no Oriente, que pudesse reforçar a esperança cristã numa vitória perante uma ascendente diáspora muçulmana. Foram séculos de um imaginário que, apesar de tudo, contribuiu para demasiados feitos e inúmeras conquistas na dimensão humana da época, tais como as odisseias marítimas até ao Extremo-Oriente.

Passados tantos séculos, vive agora o CDS num período de uma igual percepção de sítio, ou seja, tal como os cristãos necessitavam de uma força quase imaginária, portentosa, invencível que lhes dissesse como superar os feitos muçulmanos e os arredasse dessa confinação geográfica, o partido que se diz Democrata-Cristão vive uma imperativa necessidade de esperança, de resistência e objectividade para o futuro.

Como já foi dito muito vários especialistas em política nacional, a conjuntura do CDS é expecionalmente dura e parece este estar num estado comatoso. Pela primeira vez tem adversários políticos à sua Direita, facto inédito, ou pelo menos pouco perceptível no passado recente. Foram demasiados erros que parecem cristalinamente compreendidos por todos no seio desta discussão.

Importa criar a resistência, adquirir a confiança e agregar os esforços e os recursos que parecem estar até agora meio adormecidos.

Há um CDS interno que carece de profunda reeestruturação e de um modus operandis mais eficiente e profissional, sem macular o espírito missionário dos seus militantes, mas reforçando esse cariz a uma melhor comunicação ao seu eleitorado e a um maior desafogo financeiro que permita sem sobressaltos manter o foco e e a capacidade logística de fazer a divulgação da sua mensagem. A sua autonomia financeira não pode provir exclusivamente da subvenção estatal ou casuísticos donativos. Há uma necessidade imperiosa dos seus militantes serem chamados à participação activa da vida do seu partido, sendo mais responsabilizados pelos seus sucessos ou fracassos, contribuindo obrigatoriamente com as cotas de filiação. Quando não pagamos quando estamos numa associação, acabamos por estar na mesma em part-time ou apenas de forma demasiado desinteressada. A obrigatoriedade da cotização além de trazer capacidade financeira, torna o militante mais atento e responsável por algo onde deposita seus meios pecuniários. E não parece sequer sério um partido que pretenda ser poder em Portugal, não tenha ou não conheça minimamente o seu património e dê informações correntes sobre esse assunto em sede própria aos seus militantes.

Mas há um CDS que igualmente se estrangulou com demasiados “subalternos”, que muitas vezes acabam por se tornar em pesos mortos, meios de promoção egocêntricos e agendas personalizadas ou de dispersão da mensagem original do “patriarca”. Existem a Juventude Popular e a Federação dos Trabalhadores Democrata-Cristãos com quotas de representatividade obrigatórias que acabam por fazer a revelação da antítese do que defende o CDS com o que pratica em sede própria. Quando há mérito, não há qualquer necessidade de criar obrigatoriedade de representação. O mérito não tem idade, não tem cor, não te credo, não tem status. Mas depois criou-se igualmente a possibilidade de tendências internas, que nada mais foram do que uma forma dissonante de passar mensagens do partido e muitas vezes de acicatar vaidades pessoais para promoções internas e externas que só enfraqueceram o mesmo.

Mas também há uma profunda necessidade do partido ter mais pluralidade e uma governação onde a base seja devidamente ouvida para auscultação dos desafios do país e para elencar quem melhor pode representar o partido nos respectivos concelhos ou demais lugares de  representatividade política.

E se não há futuro no CDS sem reestruturação interna e sustentabilidade financeira, não pode haver futuro sem que o ponteiro da sua reprogramação ideológica e da sua agenda programática seja afinado. Ao contrário do que alguns líderes com responsabilidades disseram atrás do CDS não é, nem deve este ser um partido pós-ideológico. E vimos recentemente com os resultados das últimas legislativas e no dia-a-dia que a assertividade ideológica não é apenas oportuna, é fundamental para entendermos o caminho que temos de trilhar num futuro extremamente desafiante.

Este CDS em deriva, foi um CDS que se preocupou excessivamente, quase exclusivamente com uma mensagem liberal de tudo é economia. O Homem objectivamente deixou de estar no centro da luta política deste partido que se diz de Democracia-Cristã. A esfera do seu símbolo deixou de ser o Ser Humano e foi gradualmente sendo a economia. Mas essa economia só existe, ou melhor só serve para satisfação da sociedade e não o contrário. Nunca mais ouvimos o CDS defender causas sociais com eficiência e profundidade. Os mais vulneráveis deixaram de ter a nossa atenção e temas como a habitação, a eliminação da pobreza, natalidade, 1º emprego, a exclusão e  reinserção social, família entre outros, deixaram de ser sublinhados com a devida importância.

A Democracia-Cristã quando surgiu, em pleno movimento pós-guerra, trazia um espírito associado de amor ao próximo e de humanismo e muito pouco de liberalismo económico.

Estou firmemente convencido de que nas opções ideológicas de futuro, por via do desgaste do capitalismo selvagem sem escrúpulos que enalteceu a ambição, o individualismo e a renúncia à família, mas também pela promoção da delapidação dos recursos naturais, esta última antagónica da prossecução de soluções em contexto de emergência climática e sustentabilidade ambiental, haverá cada vez menos espaço para arautos do Liberalismo, tout-cour. Provavelmente haverá cada vez mais espaço para a Social Democracia moderna ou para projectos socialistas mais funcionais e moderados. Do outro lado estará esse Liberalismo que só terá economia para degustação. A Democracia-Cristã genuína, teria espaço para se apresentar como uma terceira via equilibrada e rejuvenescida com temas actuais e fundamentais para as encruzilhadas da sociedade.

Temas como Ambiente e Cultura não poderão ser bastiões da Esquerda, como Justiça, Segurança e Educação não poderão resvalar para os extremismos. O ambiente será a principal causa internacional das próximas décadas e está directamente ligado com o futuro da Humanidade ( recordo a instituição na Igreja Católica em 2015 do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado pela Criação), assim como um partido patriótico, que releva a importância da história e dos valores sócio-culturais do seu país, é um partido que valoriza e potencia a Cultura.

Por outro lado será muito necessário ter a ousadia na pretensão de uma reforma do Estado (procurando um Estado pequeno mas eficiente, fiscalizador e regulador na economia e cuidador de justiça social), da criação de pontes e diálogo com adversários políticos e do tratamento de temas como a Justiça, como a Segurança, Solidariedade Social e especialmente da Educação. Sem educação, sem a devida valorização da classe docente e de toda a comunidade educativa, sem as regras existentes, sem o rigor solicitado, sem o conhecimento adquirido, não teremos bons cidadãos. Nesse indesejado trajecto perderemos conhecimento, capacidade de coabitação, capacidade tolerância, hábitos de disciplina e rigor, em suma, perderemos uma sociedade.

Recentemente fui acompanhando de longe as candidaturas à presidência do CDS  e, num exercício de reflexão misto, perdi-me entre a satisfação de observar tanta diversidade e pluralismo de opções, como por esse mesmo motivo, constatar a encruzilhada em que o CDS se colocou, que parece ter demasiadas soluções, algumas das quais evidentes demonstrações de incapacidade de diálogo entre si.

No meio dessas 5 candidaturas que fui ouvindo, algumas com pessoas que estimo e reconheço méritos inegáveis, surgiu uma que me parece ser capaz de dotar o partido de uma nova e verdadeira esperança, de o resgatar para o seu novo “reino” de efectiva capacidade de governação, materializada num jovem capaz de se elevar perante as circunstância e almejar o sucesso, como tão bem dizia Nelson Mandela. Não digo que esse jovem concorde com toda esta argumentação, ou sequer tenha a ousadia de fazer frente a esses viciosos constrangimentos internos, mas acredito convictamente na sua capacidade de mobilização, na sua visão conservadora da sociedade e no seu inegável rompimento com o passado recente do CDS.

E caro Francisco, nem sequer necessitei de quaisquer cotas para acreditar que do alto da tua tenra idade, reunirias condições para dirigir o CDS de futuro e da capacidade de liderar a Direita Portuguesa nos próximos anos.

Porque o mérito não tem idade...

 

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