2 Junho 2019      10:08

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A derrota da Humanidade no referendo irlandês

Quatro anos e mais qualquer coisa depois do referendo ao casamento homossexual na Irlanda, com vitória do Sim, e de uma certa derrota para a espécie humana alvitrada nas galerias ocultas do Vaticano

(expressivamente: as não frequentadas pelo Papa F.) …

Uma derrota da humanidade expressa num registo puramente numérico implica que a maioria dos seus representantes saiu a perder (no/o que quer que seja). Dos, enfim, sete mil milhões de seres humanos, pode dizer-se, sem grande margem de erro, que pelo menos cinco mil milhões não se identificam com os valores cristãos. E foram esses que se assumiram como derrotados.

Ainda assim, o raciocínio anterior tem uma falha óbvia: quando pressupõe (deixa implícito) que as religiões não-cristãs têm uma posição de aceitação relativamente à homossexualidade, o que sabemos não ser de todo o caso. Nesse espaço, já preenchido, temos de tudo, de simples rejeição social a feroz rejeição social, a penas de prisão, a condenações à pena capital. São as religiões bárbaras, diz o devoto cristão. Enfim, de pouco importam para este caso, aceitemos que por falta de algumas condições, mais ou menos evidentes, certos mundos ainda não se podem tocar totalmente sem que daí se derive para lógicas no mínimo perversas. Pelo que, choque por choque, restam cristãos e não cristãos educados na cristandade, e para os cristãos, três hipóteses (a degenerar, quando muito, na simples rejeição social, pois tudo o mais era irreversível por demasiado medonho) – claro que os supramencionados não cristãos obviamente já, enfim, escolheram previamente, ou seja, por exclusão de partes:

- Ou o cristão assume essas posições críticas, ainda que atenuadas, para si, mantendo – e disseminando por relevante – o pesado discurso oficial, apenas evitando a necessidade de um fim palpável (prisão, castigo terreno, etc.). Como de resto, por hábito, faz um qualquer nobre cardeal, assim levando os ajustes de contas para o limbo das ameaças vácuas ou para o juízo final.

- Ou então aceita o livre correr do espírito dos tempos, ajustando de tempos a tempos sem necessariamente ajustar abruptamente, e assim preservando a fachada simbólica; uma subtil mudança, apenas nas entrelinhas do contrato. No ponto em que a religião se torna política, ganha em presença de espírito o que perde em espírito.

- Ou o cristão abdica da religião.

Excluída a terceira, caso opte pela segunda hipótese, no fundo, dá a si própria a hipótese de se salvar, sustentada na representação figurativa, a projecção do Grande Outro como lhe chamou Lacan; tendo finalmente a coragem de abandonar a posição precisa, a necessidade de intervenção directa no real, onde a farsa se torna demasiado óbvia.

Mas parece que não, o deus-católico-cristão (a quem nos dirigimos) insiste em morrer aos poucos. O problema é que os supostos interessados são cada vez mais, e ao mesmo tempo, os executores e as vítimas de tão pesada pena. Outros tomarão o seu lugar, e tal não tem nada de bom, mesmo se ainda se apelidarem de cristãos.

Imagem de pressabroad.com

 

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