Uma investigação da Universidade de Évora concluiu que a utilização de cascas de noz trituradas e biochar em substratos hortícolas permite manter a produtividade da alface e reduzir significativamente a concentração de nitratos nas folhas. O estudo, realizado na Herdade Experimental da Mitra, demonstrou que esta mistura pode substituir 20% da fibra de coco habitualmente utilizada na produção em estufa.
A investigação, publicada na revista científica internacional Horticulturae, envolveu uma equipa multidisciplinar das áreas das Ciências Agrárias e da Química e Bioquímica, com participação de investigadores do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED) e do Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade (CHANGE).
Durante o ensaio foram avaliadas diferentes combinações de fibra de coco, cascas de noz e biochar, um material rico em carbono produzido através da transformação termoquímica de biomassa.
A formulação que apresentou melhores resultados foi composta por 80% de fibra de coco, 12% de cascas de noz e 8% de biochar, em volume. Com esta mistura, foi possível alcançar uma produtividade de 7,1 quilogramas de alface fresca por metro quadrado, um valor comparável ao obtido com o substrato de referência, constituído exclusivamente por fibra de coco.
Um dos principais resultados do estudo foi a diminuição de cerca de 61% da concentração de nitratos nas folhas de alface. Os valores passaram de aproximadamente 4130 para 1600 miligramas por quilograma de matéria fresca.
Os investigadores identificaram também um aumento do teor de antocianinas, compostos naturais da família dos flavonoides associados à atividade antioxidante.
Segundo Rui Machado, Rui Ferreira e Isabel Alves Pereira, investigadores do MED, os resultados demonstram que a composição dos substratos pode influenciar não só a produtividade das culturas, mas também características relacionadas com a qualidade dos produtos hortícolas.
A utilização de cascas de noz, um subproduto da indústria agroalimentar, abre uma possibilidade de valorização de resíduos e de diversificação das matérias-primas utilizadas na horticultura.
A investigação enquadra-se nos princípios da economia circular e poderá contribuir para reduzir a dependência de materiais importados, nomeadamente da fibra de coco.
Os autores consideram, contudo, necessário aprofundar os estudos para otimizar as formulações, avaliar a gestão da rega e testar a aplicação destas misturas noutras culturas e em diferentes condições de produção.
