O novo adiamento da entrada em funcionamento da linha ferroviária Évora-Caia levou à suspensão de um serviço diário de transporte de mercadorias entre o Porto de Sines e Sevilha. A decisão da transportadora MSC, cliente da Medway, representa a perda de um movimento anual estimado em 50 mil contentores, que passa a ser encaminhado para um porto espanhol.
A informação foi avançada ao jornal Nascer do SOL por Carlos Vasconcelos, presidente executivo da Medway, que confirmou ter sido informado recentemente de que a linha, inicialmente prevista para entrar em exploração em 2027, só deverá estar disponível em 2028. Perante o novo calendário, o cliente decidiu não aguardar mais tempo e suspender o serviço ferroviário.
A ligação Évora-Caia integra o Corredor Internacional Sul, considerado estratégico para aproximar o Porto de Sines dos mercados espanhóis e europeus. Com cerca de 90 quilómetros, a nova infraestrutura permitirá reduzir em aproximadamente 140 quilómetros o percurso ferroviário das mercadorias entre Sines e a fronteira, além de aumentar significativamente a capacidade de transporte.
Apesar de a construção da linha ter sido dada como concluída em janeiro deste ano pelo ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, a circulação continua dependente dos procedimentos de sinalização, certificação e autorização de entrada em serviço. O governante reconheceu entretanto novos atrasos, justificando-os com furtos e atos de vandalismo que afetaram equipamentos de catenária, sinalização e telecomunicações.
O processo de certificação também está a demorar mais do que o previsto devido à escassez de entidades independentes habilitadas para realizar estes procedimentos. O Governo pediu à Infraestruturas de Portugal uma reavaliação do calendário, mas ainda não avançou uma nova data oficial para a abertura da linha.
A situação é agravada pelas limitações na Linha de Vendas Novas, onde decorrem obras de modernização. Segundo Carlos Vasconcelos, os constrangimentos provocados pelos trabalhos levaram à perda de 19 comboios da Medway numa única semana. A empreitada, consignada em dezembro de 2025 por 120 milhões de euros, tem um prazo de execução de 48 meses.
Sem a ligação Évora-Caia, os comboios de mercadorias entre Sines e Espanha têm de recorrer a um itinerário alternativo, que acrescenta cerca de 140 quilómetros ao percurso. A Medway esperava que a nova infraestrutura permitisse ultrapassar esta limitação e tornar o transporte ferroviário mais competitivo.
O impacto surge num período de dificuldades para o Porto de Sines. De acordo com os dados referidos pelo Nascer do SOL, o movimento total de mercadorias caiu 12% em 2025. Ainda assim, o Terminal XXI registou, em julho de 2026, um novo máximo mensal, com mais de 189 mil TEU movimentados.
Carlos Vasconcelos alerta que a perda de clientes e de serviços regulares pode ter efeitos duradouros, uma vez que os operadores tendem a consolidar alternativas logísticas quando encontram soluções de transporte mais previsíveis. A suspensão da ligação a Sevilha representa, assim, um revés para a estratégia de reforço da componente ferroviária do Porto de Sines.
Os atrasos na linha Évora-Caia prolongam um historial de derrapagens no projeto, inicialmente integrado no programa Ferrovia 2020, lançado em 2016. Um relatório da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes, relativo à execução dos investimentos ferroviários, já identificava desvios de vários anos face ao calendário inicial.
O problema não se limita à ligação ferroviária ao Alentejo. O mesmo artigo aponta atrasos nos estudos da Terceira Travessia do Tejo e da futura linha de alta velocidade entre Barreiro e Évora. A Infraestruturas de Portugal justifica os adiamentos com a complexidade técnica e ambiental dos projetos e com a necessidade de articulação com municípios e outras entidades.
Para o Alentejo, a entrada em funcionamento da linha Évora-Caia é determinante para melhorar a ligação do Porto de Sines a Espanha, reforçar a capacidade exportadora e atrair atividade logística e industrial. A suspensão do serviço para Sevilha demonstra que os atrasos nas infraestruturas podem ter consequências económicas concretas antes mesmo de as obras entrarem em exploração.
