O distrito de Beja vai passar a contar, a partir do próximo mês de novembro, com um serviço estruturado de apoio e alojamento urgente para a população sem-abrigo, anunciou a associação Estar. Esta nova resposta social surge após a validação da candidatura do projeto “Viver” ao Programa Regional Alentejo 2030, que prevê um financiamento global acima dos 610 mil euros. Segundo a Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) promotora, a iniciativa visa resolver uma falha grave na região, que atualmente regista uma das maiores taxas de pessoas sem-abrigo do país em contraste com uma oferta pública de acolhimento quase inexistente. O financiamento do projeto será assegurado em 85% pelo Fundo Social Europeu Plus, estendendo-se por um período de três anos até ao final de 2029.
Madalena Palma, presidente da associação sediada em Beja, sublinhou que este passo responde a um apelo antigo do território, permitindo acolher com dignidade e acompanhar de forma integrada quem até agora não tinha para onde ir ao final do dia. No terreno, a intervenção será operacionalizada por equipas multidisciplinares focadas em planos de reinserção individuais e na criação da Residência de Emergência e Desenvolvimento (REDE), um espaço de habitação temporária e segura focado na autonomia dos utentes. Embora a localização exata da residência ainda não tenha sido revelada, os procedimentos de contratação e constituição das equipas vão avançar nas próximas semanas. A urgência da medida reflete-se nos indicadores nacionais, que apontavam para quase 15 mil pessoas sem-abrigo em Portugal no final de 2024, com o Alentejo interior e o Algarve a registarem uma forte concentração de casos e concelhos da região como Moura e Beja entre os que apresentam números mais expressivos. Beja com 369 pessoas e o concelho de Moura registava mesmo 634 pessoas em situação de sem-abrigo.
Este número coloca o município alentejano como o segundo concelho do país com maior número absoluto de pessoas nesta situação, ficando apenas atrás de Lisboa (3.122) e à frente de grandes cidades como o Porto (553).
A explicação para este indicador prende-se com os critérios da Estratégia Nacional (ENIPSSA): o conceito de “sem-abrigo” abrange não apenas as pessoas “sem teto” (que vivem literalmente na rua), mas também as pessoas “sem casa” (que vivem de forma temporária em alojamentos precários, centros de acolhimento ou quartos pagos por entidades sociais). No Alentejo interior, a forte incidência de pobreza e as carências habitacionais severas em comunidades vulneráveis justificam que concelhos pequenos como Moura, Monforte ou Mourão apareçam no topo das estatísticas nacionais.
