Uma fatia significativa dos futuros clínicos formados em Portugal está a colocar a hipótese de deixar o país, segundo revelam os dados do recente relatório “Presente e Futuro | A Visão dos Futuros Médicos” [29 de outubro de 2026]. A análise, desenvolvida pela Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), concluiu que cerca de 36% dos alunos inquiridos admitem a possibilidade de emigrar, alertando para a urgência de aumentar a capacidade de atração e retenção de profissionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS). No sentido inverso, sensivelmente 35% dos participantes descartam a saída do país, enquanto quase 30% permanecem indecisos sobre o rumo a tomar.
A fuga de quadros encontra a sua principal justificação nas remunerações praticadas em território nacional, nas debilidades das condições laborais e na procura de uma melhor qualidade de vida. Quando instados a apontar as transformações prioritárias para o setor da saúde em Portugal, metade dos estudantes sublinhou a necessidade de reestruturar os horários de trabalho, mitigar o volume de horas extraordinárias e assegurar uma conciliação saudável entre a esfera pessoal e a profissional. Adicionalmente, as tabelas salariais foram indicadas como prioridade por 46,1% dos jovens, que manifestaram ainda descontentamento com as barreiras burocráticas e com a falta de perspetivas de progressão na carreira.
O estudo compilou os testemunhos de aproximadamente 700 estudantes provenientes das 11 faculdades de Medicina do país, tendo sido estruturado no seio do grupo de trabalho “Um Rumo para a Saúde”, uma iniciativa conjunta com a Ordem dos Médicos. A presidente da ANEM, Maria Fontão, defendeu que o planeamento dos recursos humanos públicos não se pode limitar ao controlo das vagas anuais de acesso ao curso, exigindo antes uma intervenção estrutural nas condições contratuais e de desenvolvimento profissional.
A investigação detetou ainda uma correlação direta entre a localização geográfica da faculdade frequentada e a região onde os futuros médicos idealizam trabalhar, um fator considerado crucial para a distribuição equilibrada de médicos pelas várias regiões de Portugal. A divulgação do relatório teve lugar em Lisboa, no Auditório da Ordem dos Médicos, inserida na comemoração do 43.º aniversário da ANEM, que representa atualmente perto de 12 mil estudantes de Medicina portugueses.
