Um novo empreendimento turístico na Comporta, orçado em 15 milhões de euros, entrou em fase de consulta pública. O projeto, denominado Hotel Rural Comporta Montes e da responsabilidade da firma Monte da Barrada do Moinho, prevê a instalação de 72 unidades de alojamento (totalizando 200 camas) numa propriedade de 17,6 hectares situada na União das Freguesias da Comporta, em Alcácer do Sal. Por se localizar integralmente no Sítio de Importância Comunitária Comporta/Galé, uma zona protegida da Rede Natura 2000 que integra dunas e pinhal, a proposta está a ser avaliada pelo seu impacto ecológico.
A estrutura do complexo hoteleiro será composta por 28 vivendas, 28 suítes e 16 quartos tradicionais. O plano inclui ainda um núcleo central com receção, espaço de restauração e bar, uma zona de bem-estar com spa subterrâneo e um terraço com bar na cobertura, estimando-se que os trabalhos de construção fiquem concluídos no prazo de um ano. Esta versão do projeto surge após uma reformulação motivada por um chumbo inicial do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em 2018. Com as alterações introduzidas, que garantiram o aval da entidade em 2019, houve uma redução de 28% na área impermeabilizada e de 39% na superfície total afetada, concentrando o edificado em apenas um quarto da propriedade total e mantendo uma distância superior a um quilómetro do Carvalhal, a povoação vizinha mais próxima.
O Estudo de Impacte Ambiental (EIA) detalha desafios ecológicos complexos na propriedade, dominada por uma mancha florestal de pinheiros. Os técnicos detetaram no terreno uma área protegida de dunas litorais com zimbros (Juniperus). Adicionalmente, das 158 variedades de plantas registadas, 22 encontram-se sob ameaça ou em risco de extinção, tendo sido mapeados seis aglomerados desta flora sensível que correm o risco de ser danificados durante as obras. No que toca à fauna, das 124 espécies identificadas, cinco apresentam um estatuto de conservação vulnerável ou em perigo, destacando-se o picanço-real, o peneireiro e o coelho-bravo.
A sustentabilidade hídrica assume contornos rigorosos na proposta. O consumo anual estimado é de 28.044 metros cúbicos de água, que será captada através de dois furos subterrâneos. Todavia, devido às fragilidades detetadas no aquífero local para utilizações supérfluas, o enchimento e a manutenção das piscinas terão de ser assegurados externamente por camiões-cisterna. Embora o relatório ambiental classifique a maior parte dos efeitos negativos como residuais e destaque a dinamização económica e laboral como o principal benefício, são apontados pontos críticos para o futuro. Na fase operacional, antecipa-se um impacto moderado do ruído provocado pelo tráfego rodoviário junto aos acessos e perspetiva-se um acréscimo de pressão na resposta dos serviços de saúde locais, em particular durante os meses de verão.
A ZERO e outras associações têm alertado recorrentemente para a sobreexploração dos aquíferos na região Alentejo/Comporta devido à proliferação de resorts e campos de golfe. No caso deste hotel, o facto de as piscinas precisarem de ser abastecidas por autotanques (por restrições no uso do aquífero local) valida os avisos crónicos dos ambientalistas sobre a escassez de água na zona.
As associações contestam de forma categórica a aprovação de projetos turísticos em Sítios de Importância Comunitária. Argumentam que a fragmentação de habitats de interesse prioritário — como as dunas com Juniperus e o pinhal nativo mencionados no estudo deste hotel — põe em risco a biodiversidade e viola as diretivas europeias de conservação.
Os movimentos de defesa do ambiente criticam o modelo de desenvolvimento turístico focado no segmento de luxo para o litoral alentejano, apontando que a acumulação de projetos (mesmo os que reduzem a área impermeabilizada individualmente) gera um impacto cumulativo destruidor para a fauna e flora locais.
