19 Maio 2020      05:51

Está aqui

A tão esperada saída da toca

Depois de meses de forçado retiro, são muitas as emoções escondidas. Aproxima-se o excitante final do enclausuramento.

O regresso a alguma aparente normalidade traz consigo o receio de que todo este esforço tenha sido em vão. A realidade agora é outra, muito diferente da que conhecíamos.

Saímos para a rua, mas as máscaras que nos protegem deixam-nos irreconhecíveis. Acenamos, mas não sabemos quem passa por nós. Os nossos sorrisos e expressões estão ocultos e assim vão continuar durante algum tempo, para nossa proteção.

O tempo passado no recato do lar fez crescer a barba, o que, dizem os entendidos, pode ser um foco de contágio. O cabelo, como se diz na gíria, “já quase dá nêsperas” Fiz a marcação no barbeiro, que agora não tem mãos a medir para despachar o serviço. Só há vaga para daqui a duas semanas. Até lá, os micróbios vão-se acumulando, numa aparência que faz lembrar um qualquer D. Quixote.

As filas no supermercado ainda continuam iguais, com o necessário compasso de espera para poder encher o frigorífico. Dizia um velhote à minha frente:

- Nunca nos dias da minha vida pensei passar por isto!

Ouvimos as histórias e os boatos, em muitos casos infundados;

- O meu vizinho já foi para o hospital! Veio de Lisboa e trouxe o "bicho", de certeza!

Responde a senhora da caixa:

- Ontem, de madrugada, chegou à rua um casal de Lisboa. Nunca os tinha visto por cá! Em vez de estarem sossegados, vêm apoquentar a gente! Fechem o Alentejo!

A verdade é que durante estes meses, fomos vendo umas caras estranhas nas pacatas vilas e aldeias alentejanas. No meio de tanta conversa assustadora, vasculhamos as prateleiras, por entre os olhares desconfiados e anónimos, à procura da lixívia, das luvas e do álcool-gel, que muitas vezes estão esgotados. No início, as compras foram compulsivas. Havia um receio, talvez infundado, de que os bens fossem faltar. Hoje não sabemos o que fazer a tantas latas de atum e de feijão frade. Vamos ter que usar a imaginação culinária: sandes de atum, arroz com atum, atum com batata cozida, etc.

Até a programada ida ao centro comercial, outrora entediante e espinhosa, ganha contornos de verdadeira lua-de-mel

Mas o tempo de confinamento foi também um tempo de descobertas. Aprendemos os segredos da bimby e demos largas a imaginação.

Foram muitos os quilos ganhos e os vídeos de culinária partilhados no facebook. Ficamos a descobrir que os nossos amigos e amigas são verdadeiros “masterchefs” , por entre os bolinhos de aveia, pavlovas e o borrego assado com alecrim. Eu, pessoalmente, e por insistência do rebento, não consegui passar do pudim “Mandarim” e do bolo de iogurte, apesar de em relação ao último as fornadas saírem quase sempre queimadas. Se isto durasse mais uns meses, seguramente que a aprendizagem iria resultar.

No lar, foram muitas as horas a construir castelos com almofadas e a desenhar naves espaciais e super-heróis coloridos, para entreter a criança. O tik tok também deu uma ajuda, para mandarmos vídeos divertidos para as avós. Quando a imaginação começou a faltar, chegou a notícia de que o jardim de infância ia finalmente abrir! As saudades já são muitas.

Há quase três meses que o Francisco não vê crianças. As brincadeiras são só com os adultos o que, quer queiramos quer não, não é a mesma coisa. Seguramente que os psicólogos explicarão isso melhor que ninguém. Também as educadoras sentem saudades dessa rotina, como eu sinto de as ver de manhã, a beber o café, antes de iniciarem a jornada, numa alegre cavaqueira que parece agora tão distante. Uma escola sem crianças não faz sentido. Subitamente, passámos a ter saudades de coisas que eram antes tão normais e que faziam parte do nosso quotidiano.

Este foi um tempo de aprendizagem, para darmos valor ao que realmente importa e apreciar cada momento de uma vida que nos foi em certo sentido roubada, temporariamente. Talvez esta tenha sido uma lição para que a humanidade se torne mais solidária, no futuro!

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