8 Dezembro 2019      23:48

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Região Autónoma do Alentejo. É inevitável e inegociável

Enfim, a regionalização voltou à discussão pública. Imprensa, partidos e Presidente da República já não negam que o tema voltou a aquecer 21 anos após o referendo.

De muitos porquês que possamos atribuir ao ressurgimento do tema, um deles é mais que claro. Em 21 anos absolutamente nada foi feito no combate ao centralismo do Estadão e à desertificação demográfica do interior, o que levou ao intensificar do sentimento de abandono das massas não pertencentes aos grandes centros urbanos por parte do próprio Estado. O Alentejo e os alentejanos não constituem uma excepção neste sentimento de abandono.

Viver no e do Alentejo significa viver envolto nos mesmos problemas que existiam há 21 anos, 31 anos ou até mesmo problemas pré democracia. Significa viver com a ferida infligida pelo Estado Novo quando este decidiu apenas industrializar o norte e o centro de Portugal, condenando os alentejanos às foices, às enxadas e às picaretas, para envergar o estandarte de celeiro da nação. Essa ferida prevalece até aos dias de hoje, a indústria é inexistente, tão inexistente como as cearas que deveriam personificar o dito celeiro. Em suma, não resta nada, e que fazer quando não resta nada? Uma de duas, sobreviver ou “abalar”. E quem abala não volta, pois, não compensa voltar. E quem fica não tem esperança de ver os seus filhos terem uma vida melhor que a sua se por ali ficarem.

Simplisticamente, é este o principal problema do Alentejo, aquele que sempre foi. A economia.

Os anos passam, os governos passam, o problema persiste. Em todas as campanhas eleitorais os discursos pomposos e cheios de lirismos em torno do problema vêm à tona por parte de políticos que sempre viveram no conforto dos grandes centros, mas nunca nada é materializado em acções concretas para resolver o problema. O Alentejo e o interior em geral estão órfãos de representatividade, e desprovidos de força política para pressionar o cartel da faixa litoral Lisboa/Porto a ceder na obrigação do desenvolvimento económico do interior.

Torna-se então inevitável e inegociável a criação da Região Autónoma do Alentejo. É necessário que esta região possua uma voz que fale por si como um todo. É necessária uma instituição que nos permita discutir e apresentar soluções para os nossos problemas e desafios.

É necessária a liberdade política suficiente para que possamos ser donos das nossas questões regionais, mas sobretudo, que haja uma voz com o peso e o mediatismo suficiente para as transportar até aos centros de decisão nacionais e que fiscalize as suas responsabilidades para connosco.

É fundamental que as nossas empresas e negócios locais se sintam respaldados através de acordos e políticas públicas firmados com a força de uma região, em vez da força irrelevante de um mero município.

É essencial reforçar a cooperação económica da região com a Extremadura espanhola a bem do desenvolvimento local com a voz da região, e não apenas com a voz dos municípios da raia.

Assim com é também imprescindível promover com proveito as nossas marcas sólidas dos vinhos, dos azeites ou da carne nas feiras internacionais com apoio de uma região, em lugar de um mero município.

É necessário o avivar da actividade turística da costa alentejana, do turismo rural, do turismo de natureza, turismo vinícola, turismo histórico e pré-histórico através da promoção internacional de todas estas vertentes sustentadas por uma região inteira.

Urge que não só o Alentejo, como todo o interior, disponha de isenções fiscais para quem por cá se decida estabelecer, formar família e fazer negócios. Urge que se criem condições para que seja apelativo a um profissional de saúde ou de segurança estabelecer-se por cá através de incentivos fiscais, salariais ou reforma antecipada. Urge que hajam dignos acessos entre cidades. Urge uma expansão da rede de abastecimento do Alqueva ao alto Alentejo e ao Alentejo litoral. Urge estimular a importância geográfica do porto de Sines como o melhor ponto de entrada de mercadorias na Europa vindas da América do Sul e da África atlântica, e da importância da ferrovia para que tal seja verdade.

Por todos estes motivos entre outros tantos, a Região Autónoma do Alentejo tornou-se numa circunstância inevitável e inegociável. Não se trata de uma desconsideração ao municipalismo, mas sim, um complemento do mesmo, uma junção das forças de todos eles, para tratar das grandes questões regionais das quais o Estado há muito desistiu de dar a devida importância.

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