22 Maio 2018      15:42

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Quando os danos colaterais são os mortos e os feridos

Já não existem palavras aveludadas, estas apenas refletem mágoa e revolta. Os escritos já só conseguem exprimir realidades obscenas e sentimentos marcados pela insubmissão. O meu acervo dos sonhos vai-se esgotando e, chegar a acordo com o tempo, começa a não estar nos meus planos.   

Enquanto se exuberam essências, as catarses coletivas vão-se impondo pelo mundo fora.

Tinha, inicialmente, pensado escrever sobre Maio de 68, sobre os encantos e os desencantos de juventudes vividas de esperanças e de poéticas sonhadas e sempre adiadas.

Mas Gaza impôs-se.

Gostava de vos levar a ver, ou de vos mostrar aquilo que já todos sabemos existir. São centenas de mortos e milhares de feridos, mas isto são “apenas” os feitos colaterais. Netanyahu congratula-se, Trump regozija-se …tudo continua bem no reino da estupidez e da ignomínia.

A embaixada dos Estados Unidos deslocou-se para Jerusalém. Mas não será este o mal menor?  Para os palestinianos saberem se tem luz, água ou comida; perceberem quando podem dormir sem que lhes caia um míssil no telhado; saberem se podem recorrer a um médico quando estão doentes; perceberem se acordam no dia seguinte; sonharem com escolas para os filhos; serem senhores da sua terra  …. são, certamente, coisas que mais os inquietam.

Gaza domina os media enquanto está a ser bombardeada, quando a ofensiva terminar tudo volta ao esquecimento e o status quo permanecerá até à próxima investida. A palestina fica muito longe (quase imperceptível nos mapas), não possui petróleo e as sirenes, à distância que estão, não ensurdecem os nossos ouvidos.

Um Estado construído sobre sucessivas violações dos Direitos Humanos, sobre frequentes apelos ao racismo e ao apartheid, não merece qualquer tipo de credibilidade, nem de respeito. O constante olhar para o lado por parte dos países ocidentais, escondendo-se por detrás de sucessivas crises masturbatórias, vão protelando o inadiável. A contínua relativização destas políticas fascizantes apenas dependem dos regimes que as sustentam. Enquanto tudo acontece, na ONU acerbam-se discussões e nada se resolve.

Uma guerra onde só um lado possui armas, não é uma guerra, é um genocídio. Uma guerra onde a razão está do lado dos desarmados, pode estar perdida no terreno, mas com toda a certeza será ganha na fundamentação e na justiça que lhe assiste. Vive-se num estado de guerra permanente numa terra sitiada onde os legítimos habitantes se tornaram os refugiados, os segregados, os exilados.

São décadas de conflitos banalizados pelo tempo. São gentes esquecidas que carregam a razão e não conhecem a resignação.

Imagem de capa de MOHAMMED SALEM / REUTERS

 

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