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Narrativas de uma pandemia com Francisco Javier Martínez em Évora

O investigador do CIDEHUS-Universidade de Évora, Francisco Javier Martínez, é especialista em História da Medicina e o actual responsável pela Quarantine Studies Network e dá o pontapé de saída a uma iniciativa do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, a que nos associamos, e que através de entrevistas, artigos de opinião, notícias e artigos de divulgação científica cruza a investigação em História e Ciências Sociais com o mundo actual, desacelerado pela pandemia do novo Coronavírus. O investigador é entrevistado por Sónia Bombico.

O Francisco Javier é formado em Medicina e investigador na área da História da Medicina e do estudo das epidemias, com toda a certeza tem um olhar privilegiado sobre o momento que vivemos. Como é que avalia o momento actual na sequência da propagação da COVID-19?
O historiador de medicina norte-americano Charles Rosenberg assinalou, há muito tempo, que as grandes epidemias têm uma espécie de “dramaturgia” constante, desde um início mais ou menos camuflado, passando por um desenvolvimento de crescente tensão e incerteza, até chegar a uma fase de crise colectiva e finalmente desparecer, às vezes de forma brusca.
Na Europa, neste momento, encontramo-nos na fase de crise, com um rapidíssimo aumento do número de casos e de mortes e uma sensação de impotência e desassossego. Esperamos que o final chegue o mais cedo e rapidamente possível.

Com base na investigação que tem desenvolvido, sente que estamos a viver um momento histórico inigualável?
Pessoalmente é a primeira vez desde que sou historiador da medicina que tenho a sensação de estar a viver o que tantas vezes li e investiguei. Era, normalmente, difícil explicar ao público e aos colegas historiadores o que é e o que pressupõe uma epidemia e uma quarentena, mas agora de certeza que toda a gente o entenderá perfeitamente.
De forma mais generalizada, uma experiência tão impactante como a presente pandemia do novo coronavírus e, ainda mais, o confinamento doméstico por um período mais ou menos prolongado de toda a população, em vários países, vão ficar, sem dúvida, gravadas na memória colectiva. Há analistas que já falam de uma “geração coronavírus”.

Actualmente, a população tem mais mobilidade, o mundo é mais global e mais “imediato” do que em períodos históricos anteriores, como a Idade Média, quando a Europa foi assolada pela Peste Negra, ou os inícios do século XX, quando o vírus influenza provocou uma pandemia que ficou conhecida como a Gripe Espanhola. Considera que estamos, hoje, mais vulneráveis à propagação generalizada deste tipo de epidemia?
A intensidade actual da mobilidade global, possibilitada pela rapidez, frequência e baixo preço das ligações aéreas e terrestres, foi um factor decisivo no impacto enorme e instantâneo da COVID-19. No século XIX, a expansão da cólera e da peste não teria sido possível sem o desenvolvimento do caminho-de-ferro e da navegação a vapor, que encurtaram extraordinariamente as distâncias entre países e o preço das viagens.
Quanto mais rápidas, frequentes e fáceis forem as interacções entre as pessoas em torno do globo, mais vulneráveis seremos a este tipo de epidemias infecciosas; que, até há algumas décadas, pensámos que poderiam ser erradicadas.

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