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Música

Música, arte e gastronomia são os grandes destaques do Terras sem Sombra em Beja

O Festival Terras sem Sombra volta a passar pelo concelho de Beja no próximo fim de semana (dias 13 e 14), oferecendo “um programa que entrelaça a grande música, a arte portuguesa na construção de instrumentos musicais e as memórias e identidades da mesa alentejana”, pode ler-se em comunicado.

A noite de sábado (13) “reserva um momento memorável na longa história do Teatro Pax Julia”, que promete “iluminar-se com a magistralidade” da música de G. F. Handel, num espetáculo “de uma das principais orquestras de Espanha”, a partir das 21:30.

Composta no ano de 1749, «Música para os Fogos-de-Artifício», uma das obras mais célebres do alemão, naturalizado cidadão britânico, George Friedrich Handel, “ascende ao palco bejense, sob a batuta de Manuel Paz, à frente da asturiana OCAS – Orquesta de Cámara Solidaria, um agrupamento muito conhecido à escala europeia e que tem triunfado nos palcos da China e da América Latina”, explica a organização, avançando ainda que esta composição foi, na sua origem, “orquestrada para uma grande banda de metais, percussão e madeiras”, adotando “um caráter festivo, vibrante e triunfante”.

“Em palco, contaremos pela primeira vez, na nossa região, com um dispositivo completo, o que inclui canhões de sala. Há que recordar que a peça foi originalmente pensada para acompanhar um grandioso espetáculo de fogos-de-artifício nos jardins de Green Park, em Londres”, destaca José António Falcão, diretor-geral do festival, explicando ainda que “estamos perante uma obra cimeira do compositor que se afigura muito oportuna também nos nossos dias. Na sua origem, esta peça celebra a paz entre Inglaterra e França, numa encomenda do rei Jorge II de Inglaterra. Hoje, também o mundo anseia por paz”, palavras que acabam por enquadrar o título do concerto: «Viva a Paz! Música para os Fogos-de-Artifício Reais, de G. F. Handel».

A OCAS, fundada no ano de 2002 nas Astúrias, pretende promover “a música como linguagem universal”. Já levou, sob o projeto Vínculos, concertos, oficinas e ações pedagógicas a mais de 15 países. Promove ainda, localmente, iniciativas educativas como a Escola de Música Itinerante de Siero e diversos concertos solidários.

Manuel Paz, maestro natural de Ujo, em Mieres, é fundador e diretor artístico da orquestra. Este “músico multifacetado” é o responsável pela criação de Vínculos, destacando-se ainda pela sua dedicação ao ensino, adotando uma filosofia baseada “na empatia e na partilha”, através da música enquanto elo cultural e humano.

Antes deste espetáculo de sábado (13), o programa musical “revisita obras de grandes compositores latinos”, através da voz da soprano espanhola Hanna del Canto, “uma estrela em ascensão” no Bel Canto.

Nascida em 2000, Hanna del Canto é “uma intérprete versátil e dedicada, que se lança com vigor nos palcos do mundo”. A soprano é membro efetivo de Intermezzo Promusic e de Lumen, tendo já dirigido o Coro Voces Blancas del Nalón e a Chorale «A coeur joie». No sábado (13), interpreta “peças da tradição sefardita e de Alberto Lozano, Gerónimo Giméne, Ruperto-Chapí e Francisco Asenjo Barbieri”, entre outras.

Mais cedo, na tarde de sábado (13), o tempo promete desacelerar no atelier da família Cardoso, na Trindade, “onde guitarras, violinos e cavaquinhos nascem de mãos que cuidam a madeira como memória e futuro”, com um “momento memorável no âmbito do património cultural alentejano”, chamado «O Ofício de Luthier: Construir Instrumentos de Cordas na Trindade». Com ponto de encontro no n.º 36 da Rua José Mariano dos Reis, a iniciativa tem como anfitriões José António Cardoso e o seu filho Paulo Cardoso, “dois profissionais notáveis”. Ambos se dedicam “à nobre arte do fabrico de instrumentos, neste caso a partir de um atelier a funcionar desde 2005 no meio rural”, que se apresenta como “um sinal de uma nova Europa, descentralizada, capaz de encontrar na cultura um estímulo económico e social para o renascimento e a afirmação dos territórios rurais”.

Nascido em 1961, em Ribeira de Pena, José António Cardoso reside no Alentejo desde 1985. O filho, Paulo Cardoso, nasceu em 1985, em Mafra, e sempre viveu no Alentejo. Ambos começaram como “autodidatas na construção de guitarras”. Paulo aprofundou conhecimentos com o mestre Infante, tendo juntos aperfeiçoado a construção e o restauro de instrumentos de corda. Atualmente, produzem de forma artesanal guitarras, violinos, violas campaniças, alaúdes, cavaquinhos, ukuleles e vários outros instrumentos tradicionais muito apreciados e disputados. Em 2021, criaram o evento «Artes & Ofícios – Cumplicidades». São também os autores do “Manual de Construção de Instrumentos”, obra em dois volumes (lançados em 2022 e 2024), pioneira em língua portuguesa.

“Alargando o olhar além do atelier da família Cardoso, Trindade afigura-se uma localidade que preserva o traço típico das comunidades rurais alentejanas”, com o “casario caiado, as ruas estreitas e a igreja de traça gótica", da Santíssima Trindade, do século XV, a evocarem “séculos de vivência comunitária”. “O património imaterial manifesta-se em tradições agrícolas, no convívio popular e no cante alentejano”, enquanto “as festas religiosas e romarias reforçam o sentido de pertença e continuidade cultural”, pode ainda ler-se no mesmo documento.

A cozinha local, “traço marcante da identidade alentejana”, dá mote a uma atividade prevista para a manhã de domingo (14), em Baleizão. Com ponto de encontro em Beja, junto às Piscinas Cobertas, pelas 09:30, a atividade «Sopas, Açordas e Migas: Da Gastronomia Sustentável à Identidade Regional» desafia os participantes para “uma viagem à essência da mesa da região”, com a orientação de Ana de Albuquerque Piedade, professora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Beja.

“Baleizão, a terra onde foi ceifada a vida de uma referência do Portugal contemporâneo, Catarina Eufémia, distingue-se pela forte identidade”, possuindo importantes monumentos religiosos, como a igreja de São Pedro de Pomares, nos matos do Guadiana, onde D. Dinis quase sucumbiu ao ataque de um urso enquanto caçava javalis, “uma página pouco conhecida da História de Portugal”. Baleizão é também “um lugar orgulhoso das suas tradições, incluindo as da convivialidade à mesa”. Neste sentido, convida os participantes na atividade de salvaguarda da biodiversidade a explorarem os segredos e labores da cozinha alentejana, e também a degustarem-na, no Clube de Caçadores. Esta iniciativa conta com a participação de António Bexiga, também conhecido como António «das Migas», “um cozinheiro de mão-cheia, referência da região”.

No Alentejo, “a cozinha fala da terra e da história através de pratos simples e generosos”, como as açordas, migas e sopas, relevantes em todas as épocas e para todas as classes. “Nas açordas, descortinamos uma origem milenar, possivelmente pré-romana, consolidada na era romana e enriquecida pelos Árabes, que as celebravam em grandes festas. São humildes na essência: alho, poejos ou coentros, azeite, água e pão partido, mas cheias de memória e alma. As migas transformam o pão em massa dourada, envolvida em carnes de porco, alho, pimentão e banha. Entre pastores, adiciona-se leite de ovelha ou cabra, criando as tradicionais «migas à pastor». Já as sopas alentejanas combinam pão, alho, azeite e ervas, variando conforme a região. Entre campos e pastagens, estas preparações eram comidas no regaço, lembrando que a cozinha alentejana é feita de partilha e celebração”, destaca a organização.

O festival Terras sem Sombra continua depois a sua programação com a estreia em Gavião, nos dias 27 e 28 de setembro. O programa musical inclui a presença de um duo mexicano, o flautista Horacio Franco e o cravista Daniel Ortega, no concerto «O Périplo Infinito: Sons do México (e da Europa)». As propostas incluem ainda a ação do património «Entre o Alentejo e a Beira: Património de Gavião» e a atividade de salvaguarda da biodiversidade «O Próprio e o Alheio: Ictiofauna do Rio Tejo».

A programação completa desta temporada do Festival Terras sem Sombra encontra-se disponível no website da iniciativa.

Todas as atividades são gratuitas.

 

Fotografia de oatual.pt

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