22 Abril 2016      18:20

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O CHEQUE CARECA DE LULA E DILMA

"MENOS ESTRANGEIRO"

“A democracia é um regime político caríssimo”. Prefiro pensar que a democracia exige, antes dos vultosos e necessários investimentos financeiros, compromisso e afeto para com os mais pobres, além de muita energia criativa, para que possa vigorar e criar raízes profundas. Num tempo de incessante disputa simbólica, esta concessão semântica para a cooptação da opinião pública é a causa primordial da falência dos sistemas políticos ao redor do mundo, pelas expectativas que cria e pelas frustrações que entrega.

O enorme erro de muitos governos está em incutirem no cidadão a lógica perversa de que a democracia em plenitude revela-se no seu acesso ao mundo do consumo. No Brasil, por exemplo, os presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff repetiram à exaustão o mantra do “país de classe média”, o qual repercutiria o sucesso das políticas públicas implementadas durante os seus governos. Erraram redondamente ao agirem assim.

A população brasileira, após a ditadura militar, ansiava por um país em que a redução das desigualdades sociais fosse causa e consequência de um Estado Social com um setor público fortalecido. A ideia de que os brasileiros e brasileiras que ascenderam socialmente realizavam seus sonhos com a compra de um automóvel foi, acima de tudo, desrespeitosa.

Ao mesmo tempo, não podemos negar que o direito ao consumo faça parte da afirmação da cidadania, especialmente entre as populações de países capitalistas. Contudo, tratar o consumo como um fim em si mesmo, em prejuízo de outros valores e princípios, além de enfraquecer e descaracterizar os objetivos da ação política dos movimentos sociais, lança os beneficiários das políticas de correção de desigualdades sociais à mesma sanha exploradora que estava na base dos problemas que motivaram a mudança de governo à esquerda. Essa estratégia governativa, além de estúpida, expõe os mais vulneráveis à intransigente ideologia dos setores que atuam contra os seus interesses de classe.

Tal ideologia indica, entre outros, o mérito pessoal como elemento basilar do progresso individual. Quanto à ação do Estado, ela propõe a sua subjugação em nome das imposições do mercado. Qualquer governo popular que alcance o poder pela via da democracia representativa, em qualquer lugar do mundo, tem toda a legitimidade para afirmar seus princípios antiliberais, além do dever de propiciar reformas que ampliem os canais de participação popular. Os governos populares precisam ampliar o rol de direitos, em detrimento da cultura da dependência e do personalismo. Assim, contribuiriam para a correção dos seus respetivos sistemas políticos nacionais.

Interessante notar que, depois de um período marcado pela explosão do consumismo, muitos brasileiros e brasileiras, a partir de 2013, passaram a ocupar as ruas em protesto contra à má qualidade dos serviços públicos. Queriam mais Estado, afirmavam as pesquisas de opinião colhidas durante os protestos. Entretanto, na falta de um aparato ideológico que os fizessem avaliar as circunstâncias sociais, econômicas e políticas através de múltiplas abordagens e, com isto, mesurar a eficiência governamental, muitos destes cidadãos diziam acreditar que a sua melhoria de vida não era resultado da ação estatal. Estavam convencidos de que o Estado representava uma estrutura demasiado grande e povoada por corruptos de toda ordem.

Conclusão: sem ações de caráter formador e amparada apenas pelo consumismo, a democracia brasileira, nos últimos anos, acabou por gerar um enorme contingente de eleitores desiludidos com “tudo isto que está aí”. Incapazes de separar o joio do trigo, de identificarem as reformas necessárias e as correções pontuais que deveriam ser feitas, sempre atados a relações clientelares que organizam o poder local, os eleitores brasileiros chegaram à atual iminência de golpe de Estado em estado de choque com a visão daquilo que ajudaram a produzir: um ambiente político em que predominam a ignorância e o ódio, dominado pelo que há de pior na comunidade de brasileiros.

Lula e Dilma compraram a tese desumana dos mercados. Aliaram-se a estes, concederam-lhes inúmeros ganhos, sem lhes retirarem nenhum dos insidiosos privilégios históricos. Venderam uma noção equivocada de progresso, baseada na pujança econômica, num cenário de constante volatilidade. Passaram um cheque careca à população. Esta analogia relacionada ao consumo é valiosa para demonstrar os seus erros. Os seus acertos e as utopias que moviam e continuam a mover grande parte de nós, devem ser, pelo contrário, tratados com muto carinho.

São os afetos e a empatia que permitem a nós, intelectuais, demonstrarmos aos mais pobres que, melhor do que um carro, uma viagem, uma roupa nova, é a dignidade de vivermos num lugar em que os direitos humanos e sociais componham uma galeria de novos símbolos nacionais, apesar do consumismo e não em função dele.

 

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