15 Agosto 2015      18:38

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CONTO I

Durante o mês de Agosto presenteamos os leitores com um conto de ficção, sobre uma investigação contada pelo testemunho de um dos seus protagonistas, que se passa num verão quente do Alentejo. Uma história contada em quatro partes ao longo deste mês, pelas palavras de um inspetor frio, reformado, que relembra quando foi chamado para resolver o desaparecimento de uma criança em 2004, da autoria de João M. Pereirinha.
 

 

ARQUIVADOS

PRIMEIRA PARTE

- Você tem filhos?

- Não…

- É casado?

- Divorciado, há cinco anos.

- Dá para perceber, tem irmãos mais novos?

- Duas irmãs, cinco e quinze anos de diferença…

- Então serve para o trabalho! Trouxe o gravador e a cerveja?

- Sim, claro, mas porquê a cerveja?

- Eu chameio-o aqui para escrever as minhas memórias, se fôssemos ficar os dois sentados a beber vinho era capaz de ficar um pouco romântico de mais – puxou de um cigarro, meteu-o na boca, e com as duas mãos levou o zippo metalizado até ao cigarro para o acender, soltou o fumo depois de inalar e olhou de lado para o jornalista do outro lado da mesa, com um sorriso sínico e fechado – não acha…?

- Porque é que acha que eu sou o homem certo para isto?

- Você mesmo disse ao telefone, que precisava do dinheiro, é divorciado e não tem filhos que o possam preocupar ou que possam ser um dia utilizados contra si, mas ao mesmo tempo tem quinze anos de diferença da sua irmã mais nova. Por isso, consegue compreender ou chegar lá perto, do que um homem e uma mulher sentem quando uma criança de oito anos desaparece sem deixar rasto.

- Aquela criança desaparecida há dez anos?

- Sim, como lhe disse, é provável que eu desapareça em breve… seja de causas ditas “naturais” (como se um cancro na cabeça tivesse alguma coisa de natural), seja porque sei, vi ou disse demais… de qualquer forma – deu uma passa demorada no cigarro – não há nada que me prenda aqui durante muito mais tempo… a vida precisa de um propósito para ser vivida, caso contrário mais vale desistirmos. Eu já esgotei os meus propósitos…

- Mas segundo me lembro…

- Ou segundo foi investigar antes de vir para aqui?

- Seja como for, segundo sei, o caso foi dado como encerrado naquela altura…

- Não vamos cortar atalhos sim?! Afinal de contas, se toda a gente soubesse tudo, ninguém teria um propósito qualquer de vida, como eu estava a dizer. É o facto de que nos convencemos que precisamos de saber, de resolver uma coisa qualquer, ou de arranjar uma desculpa para qualquer acontecimento que faz de nós os estúpidos sociopatas que somos. Acordamos todos os dias viciados na crença de que vai ser diferente, de que há um qualquer futuro melhor, de que essa ilusão do tempo muda tudo e, no fim, todos os dias foram o mesmo dia. E acabamos por morrer em cima da vala de lama que nunca deixámos de ser, insignificantes perante o Universo.

- Lembra-se daquele dia? Do dia em que foi chamado para o caso?

- Claro que lembro! 16 de Agosto de 2004. Apesar de estar completamente ressacado, quando acordei, às 6h o telefone começou a tocar. Eu tinha tirado o dia de folga, há dois anos que não tirava férias, desde o divórcio – deu uma passa profunda no cigarro queimando-o quase de uma só vez e enchendo a sala, com um ambiente lúgubre entre iluminado com um castiçal pendurado do teto, de fumo – fazer muitas horas de vigia, de noite, andar em bairros problemáticos dos arredores de Lisboa, e ter traficantes a invadirem-nos a casa quando temos uma filha de seis anos, não é bom para nenhum casamento… Acontece que naquele dia fazia precisamente dois anos que tinha deixado de ver a minha mulher e a minha filha, e ligam-me a meio da folga para ir ao Alentejo coordenar uma equipa sobre um alerta de uma criança desaparecida.

Eu nunca gostei do campo, e menos ainda do calor. Já tentou usar um fato preto num ambiente desértico com 40º C. à sombra e 50º C. ao sol? O dia tinha nascido há duas horas quando cheguei e mais parecia que tinha desembarcado no inferno. Aliás, eu nem sabia que existia um sítio assim em Portugal: para todo o lado que olhava só via crateras, gruas ferrugentas, e o vento além de queimar carregava um pó branco com sabor a calcário, era mármore. Já tinha ouvido falar em Vila Viçosa, mas quando vimos as fotografias da palácio onde os duques e os reis de Bragança enchiam a pança e iam fazer caçadas – bebeu um gole longo da segunda cerveja – não imaginamos sequer as condições nem a vida dos desgraçados que descem até duzentos metros de profundidade a céu aberto para arrancar pedra branca do coração da terra e empilha-la novamente na parede de um monárquico, burguês, maçon ou ditador árabe qualquer. Já alguma vez sentiu vertigens tendo os pés bem assentes no chão? Foi o que eu senti quando cheguei àquele sítio.

Àquela hora, quando tive um súbito vislumbre do que tinha à minha espera, com toda aquela vastidão de terra abandonada, serrações descativadas, enfim, se a criança não tinha já sido levada para fora da fronteira, podia ser que só tivesse fugido dos pais, ou que se tivesse perdido, mas no meio daquele cenário dantesco, bem que podia ficar caída no fundo de um daqueles poços, ou no meio daquelas montanhas de pedra abandonadas durante meses até que alguém desse pelo cheiro, ou tropeçasse literalmente nela… Comecei a achar que estava a perder tempo.

- E o seu companheiro? Foi sozinho até lá?

- Essa ideia de que o protocolo manda que estejamos sempre acompanhados por alguém não passa disso mesmo, uma ideia que vem nos manuais, normalmente escritos e feitos em países ricos, por gente que nunca saiu da secretária. Eu não me aguento a mim próprio em alguns dias, acha que um companheiro ia aguentar…? Enfim… seja como for, era Agosto e a maioria estava de barriga para cima no Algarve a entornar cerveja, a aturar os filhos, a fazer a vontade às mulheres e a convencerem-se de que só porque estavam de férias o mundo era menos azedo e o mal, aquela força impiedosa que nos fez lutar pela sobrevivência durante milhões de anos e que fez de nós a porcaria que somos, tirou folga. Não tirou. Nunca tira, e é ele que nos vai consumir um dia. E a prova disso foi o que encontrei quando entrei na casa dos pais.

- O que viu?

- Os desgraçados viviam num anexo de uma casa grande numa daquelas aldeias em redor de Vila Viçosa, Bencatel. Aquilo deve ter umas 2 mil pessoas, se tanto. Dois ou três são donos de mais de metade daquilo. Um quarto tem vivendas do tamanho da casa do Presidente, e os restantes vive em cubículos arrendados. Estes viviam nas traseiras da casa de um dos donos de umas quantas pedreiras. Ela trabalhava na casa e ele numa serração.

A porta dava para a cozinha, e eles estavam na divisão do lado esquerdo, na sala, a chorar abraçados um ao outro enquanto um GNR tentava acalmá-los. Conheciam-se, mas ali toda a gente se conhece, sem que seja de vista. Já tentou investigar seja o que for e ter de entrevistar milhares de pessoas?! Cada um com a sua mentira, cada um com a sua verdade, e nenhum tem merda alguma de útil para dizer! Ao fundo, no canto direito havia uma porta que dava para um corredor, o quarto dos pais era a primeira porta e o quarto da menina a porta do fundo, depois da casa de banho. Estava um cheiro nauseabundo e eu não sabia porquê, calculei que fosse do local, dos esgotos, enfim, a única vez que uma cena de um crime cheirava bem era uma perfumaria, por isso a princípio ignorei, até ter entrado no quarto.

“O que é que aconteceu aqui?!”, gritei eu para os GNR’s à porta! O que estava na sala com o casal veio a correr com a boina na mão, pálido – também não tinha dormido – “diga inspetor!”, “foda-se, disseram-me que era um desaparecimento de uma criança, não uma carnificina!!!!”, “pois inspetor, por isso é que o chamámos!”, disse-me ele com os olhos bem abertos. O primeiro local do crime que visitei era um quadro de horror e provas: um miúdo de 17 anos tinha esfaqueado um padre no abdómen, cortado os testículos do homem e tinha-o crucificado na cama. Quase vomitei. Quando interrogámos o miúdo ele limitou-se a dizer que não se arrependia de ter limpado o cebo a um pedófilo. Ficou preso quase vinte anos e saiu há meia dúzia de anos, para morrer num tiroteio num assalto a uma caixa multibanco. A justiça é isto. E o meu trabalho era olhar para um quarto cheio de sangue no chão e na colcha, os móveis partidos, uns desenhos escritos nas paredes com sangue, a janela partida e um caderno de desenhos que se afogava numa poça de sangue no chão. Todas as bonecas estavam sem cabeça. As molduras partidas, e uma vela com um crucifixo na cama. Chamou-me a atenção ainda o facto de o crucifixo ser apenas isso, isto é, não tinha a imagem de Cristo lá, e como nessas alturas há epifanias que nos vêm à memória, pensei “mais um desaparecido… há milhares de anos”.

- Não é religioso?

- As únicas drogas que tomo, atualmente, só o álcool e o tabaco.


CONITNUA

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