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JOSÉ JOAQUIM DE SOUSA REIS

Há figuras na Serra do Caldeirão, ainda do lado de cá, no Alentejo, embora já numa fronteira em que não se diferencia bem o Alentejo do Algarve, que nos fazem recordar tempos idos. Há, na memória coletiva dos habitantes, ainda hoje, referência dessas pessoas. Todas elas já foram parte de um universo que se ficcionou mais do que se manteve fiel ao real.

À MESA DO RESTAURANTE

Cheguei ao restaurante pouco passava das nove horas da noite. Uma rapariga de aspeto baixo e magro esperava os clientes com um bloco de notas escrito e rasurado à porta. Olhou-me e perguntou para quantas pessoa era a mesa. Respondi-lhe que estava sozinho e não esperava mais ninguém. Pediu-me, num gesto de simpatia algo forçada, por se tratar do seu trabalho, que me sentasse no balcão que servia de bar e outros como eu aguardavam mesa para se sentarem. Alguns deles, em grupo, falavam de assuntos tão diferentes como a política dos seus países, a noite no bar, na semana passada o curso de surf e de mergulho… Outros sentavam-se simplesmente em casais e olhavam-se sem adiantar muitas palavras. Sentei-me no meio de dois casais e pedi um copo de vinho tinto, um cabernet sauvingnon do Chile. Comecei a observar os que já se encontravam a jantar e aqueles que esperavam ainda.

ROSTOS

As fotografias captam os rostos das pessoas e escondem-nos em livros onde todas as histórias são contadas. Conheço o mundo, os rostos deste mundo, os de todas as raças pelo olhar filtrado pelos rostos do Alentejo. Os livros, os computadores e todo o conhecimento dizem-me que o mundo é redondo e a estatística que nós somos sete mil milhões de rostos neste mundo, que caminhamos cada dia com o olhar de ontem e o de amanhã. Mas, cada um é diferente de todos os outros. Seja em que parte do mundo for, as fotografias dos rostos das pessoas são a memória do seu olhar, da idade gravada no rosto, as rugas que são regatos feitos pelas lágrimas, os cabelos são não mais do que o anoitecer de cada dia em tons grisalhos como se um nevoeiro se apoderasse do tempo e da idade. O lugar onde o rosto é fotografado faz parte de cada um de nós. O meu rosto é a fotografia do Alentejo, o Baixo, esse onde as espigas se refletem no rosto queimado do Sol.

TERMINAL DE AEROPORTO

Os terminais dos aeroportos são sítios estranhos onde as pessoas se cruzam, olham, ignoram, seguem viagem sem que muitas se voltem a ver. Os terminais dos aeroportos são um sítio de passagem para tantos que anseiam pelo regresso a casa. A permanência de cada um de nós neles resume-se a poucas horas e, em cada movimento dos transeuntes entende-se a extensão da sua demora no terminal. Os passos apressados, as caras preocupadas de quem corre em busca da porta para embarcar e está atrasado para o voo. Os que se passeiam lentamente nos corredores do terminal, esperando que o tempo passe e as horas corram nos ponteiros do relógio. Todos são o terminal. Em cada área, um visor que mostra as horas dos voos, o tempo que falta para anunciar a porta de embarque, através dos grandes vidros, que são paredes, veem-se os aviões que chegam e partem, as suas asas longas em contraste com as pequenas janelas, os símbolos das companhias aéreas que representam o mundo. Num terminal, toda a diferença étnica que caracteriza o ser humano. Todas as pessoas querem chegar ao destino. Todas as pessoas sabem que a sua casa não é ali e que os aviões são parte do percurso de vida, que foram criados pelos Homens para se chegar mais depressa a um qualquer lugar. No futuro, os Homens vão inventar outra coisa para chegarem ainda mais depressa. No terminal, entre produtos que se vendem em lojas que não conseguimos evitar no percurso e em pequenos cafés que acomodam os que esperam durante algum tempo, os minutos vão decrescendo para a hora do voo.

A MÚSICA

A história da vida dos Homens é escrita em livros e guardada em museus e arquivos grandiosos e antigos, onde se mistura com esculturas, pinturas, bustos, artefactos e muitos outros fragmentos de memória. A história da vida de um Homem não cabe num museu e, para ser contada, tem de ser escrita em volumes vários. Cada Homem é um fragmento da multitude de artes, conhecimentos e criação. A história da música confunde-se com a história dos Homens e é escrita em pautas e guardada nos ouvidos dos Homens que a ouvem, que a escrevem e que fazem parte da história.

O AMANHECER

O dia amanhece antes que o murmúrio do nosso olhar assente no horizonte. Há um Sol que surge sempre a Oriente e desaparece nos antípodas. Diria que somos conhecidos, que já nos vimos em muitos lugares do mundo, em tantas das minhas viagens e aventuras pelo globo terrestre fora.

O MENINO E O CROCODILO

No momento em que, à meia-noite, do dia 20 de maio de 2002, o relógio dava doze badaladas, num campo estendido entre três lagoas, ouviam-se os festejos do nascimento. Nascia um novo dia e nascia um novo país. Nesse momento, Kofi Annan declarava a restauração da independência de Timor-Leste. A Oriente, as lágrimas daqueles que lutaram misturavam-se, nos rostos, com os sorrisos do nascimento e, todos, unidos em torno de um ideal, sorriam e choravam, olhando a bandeira que se elevava no ar.

Recordo-me, e gostaria de contar-vos, a propósito da restauração da independência, de uma breve história, com tonalidades de lenda, que me foi contada pela voz envelhecida e sábia de um lian nain. É a história de Timor-Leste e de um menino, nos seus sonhos de crocodilo, partindo em busca do disco dourado que existe no fim do mar. Encontraram-se, nas Celebes, por acaso. O menino descansava à beira de um rio que deslizava para o mar, enquanto observava as maravilhas que o seu olhar conseguia avistar. O menino pensava e sonhava, olhava o Sol que tinha acabado de nascer e pensava que aquele disco, aquele disco dourado era o seu sonho e que um dia iria alcançá-lo. Todos temos sonhos na nossa vida, pensava. Todos os temos e todos os devemos viver. Ambicionar chegar até eles e alcançá-los é um direito nosso e ninguém tem o direito de nos tirar esses sonhos, pensava o menino que, um dia, seria avô, na sua inocência de criança, guarda em si todos os sonhos do mundo como já dizia Pessoa.

ENTRE PARALELOS

A nossa vida, a de todos e de cada um, faz-se entre paralelos. Tudo começa e acaba numa latitude. Toda a nossa existência percorre latitudes, longitudes, paralelos e meridianos. Algumas até desenrolam-se entre trópicos, atravessando a linha do equador uma ou muitas vezes. Cada paralelo, cada ponto longitudinal é diferente do outro. Aliás, cada metro e cada um de nós é diferente. Nunca até hoje vi duas rochas iguais. Nunca até hoje senti que a água passasse duas vezes no mesmo sítio como já os sábios gregos antigos notaram.

9 DO 5

Tudo começou há muitos, muitos anos atrás. Na altura de deuses e deusas, de reis e princesas fenícias, tempo em que o alfabeto era diferente e de trás para a frente. Era uma vez uma princesa que se chamava Europa e estava só, no meio do campo. Sozinha, sentada nos Urais, olhava para o seu ocidente. Pensava nos largos campos que se estendiam até ao mar. Imaginava que o mundo terminaria aí. Seria um cabo que pensava chamar-lhe finisterra quando lá chegasse um dia.

O MEDO

Às vítimas de violência xenófoba.

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