26 Julho 2019      15:47

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Bonecas em Évora

Gostava de ser essa pessoa mas não sou. Na capa do livro que imagino pousado na minha mesa de cabeceira está gravado o título Bonecas. Faço um esforço para me lembrar mas não consigo precisar o momento em que a história começa. Imagino-me a dançar uma música que adoro, a mexer o meu corpo, a pensar que não sou a única a ouvir esta música. Não sou a única a dançar e a pensar isto. E grito mais alto para que alguém me possa ouvir. No outro lado do mundo há outra rapariga como eu que neste palco quer falar sobre tudo isto.

Se quiséssemos contar a história de “Bonecas”, espetáculo com estreia em Évora, hoje, 26 de julho, 21h30, no Teatro Garcia de Resende, e repete amanhã, no mesmo espaço, não conseguiríamos precisar como começou, ela constrói-se como um livro que cose diferentes cadernos numa só lombada. A ideia de que neste preciso momento há alguém algures que sente o mesmo que eu, que sofre do mesmo mal é o ponto de partida para a escrita de um texto e de uma encenação da autoria de Ana Luena que tece uma relação entre a obra da Paula Rego, a experiência partilhada com um grupo de raparigas de um Centro de Acolhimento Temporário, com um grupo de mulheres da Casa Abrigo e a história que Afonso Cruz lhe revelou que integra o seu próximo romance.

Há muitos anos que a pintora Paula Rego guarda as coisas trazidas de Portugal no seu atelier: roupas, bonecos da sua infância, memórias da Quinta da Ericeira. Está tudo lá, nas “gavetas”. São objectos que utiliza, juntamente com os bonecos que agora constrói, como modelos para os seus quadros. Há uma brutalidade bela nos quadros de Paula Rego, assim como em todo o universo subjacente à sua obra, que há muito fascinam a encenadora. Mais do que a obra pictórica é próprio processo criativo em si, tão singular desta artista, que estimula e inspira por analogia a construção deste espetáculo. O conto de Afonso Cruz “Boneca de papel” é inspirado num episódio que se passa num orfanato antes do 25 de Abril, a partir de um testemunho de uma pessoa que foi lá colocada, conta-se o seu quotidiano e a austeridade com que eram obrigadas a viver e a crescer. O orfanato era, na verdade, uma espécie de fábrica de criadas.

O trabalho desenvolvido com as adolescentes do Centro de Acolhimento Temporário da Associação Chão dos Meninos e com o grupo de mulheres vítimas de violência doméstica da Associação Ser Mulher serve de recolha de elementos para o espectáculo. É por estes territórios femininos e cruéis que assistimos a uma inversão de papéis, em que as vítimas são prisioneiras na sua própria condição de vítima e onde as intérpretes de Bonecas representam relações dicotómicas em que se confunde submisso e dominador, onde a força e a vulnerabilidade são apresentadas à semelhança de um tableau vivant.

O espetáculo é para maiores de 14 e tem direcção artística e criação de Ana Luena e José Miguel Soares (Malvada Associação Artística).

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