Uma investigação da Universidade do Minho sobre a necrópole de Torre Velha 3, em Serpa, mereceu destaque na secção de cultura do jornal francês Le Figaro. O estudo, publicado na revista científica Quaternary, revela que, há 4.000 anos, as mulheres do Baixo Alentejo eram enterradas com punhais e artefactos de combate — e que as suas sepulturas eram frequentemente as mais ricas de toda a necrópole.
A investigação baseia-se na análise de 57 hipogeus — sepulturas subterrâneas escavadas na rocha — localizados no sítio arqueológico de Torre Velha 3. O estudo antropológico identificou 28 indivíduos, dos quais 11 do sexo feminino e 9 do sexo masculino entre os adultos. Os dados revelam que as mulheres eram enterradas com punhais e armas metálicas em proporções semelhantes às dos homens, com sepulturas que exibiam maior diversidade de oferendas, desde vasos cerâmicos a ferramentas complexas.
A descoberta é considerada um marco na arqueologia ibérica, por contrariar a visão tradicional de que o estatuto de guerreiro e o uso de armamento eram exclusivos do sexo masculino. Com técnicas mais avançadas de determinação do sexo biológico a partir de restos osteológicos, os investigadores conseguiram revisitar o espólio funerário com novas conclusões sobre os papéis de género nas sociedades pré-históricas do Sudoeste da Península Ibérica.
O sítio de Torre Velha 3 foi intervencionado no âmbito do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, sob responsabilidade da EDIA, tendo resultado na identificação de um dos maiores conjuntos de hipogeus funerários do Bronze Pleno do Sudoeste Peninsular. A projeção internacional da descoberta reforça o papel do Baixo Alentejo como um dos territórios mais ricos da Pré-História europeia.
Fotografia de Eduardo Porfi rio (Palimpsesto)
