27 Novembro 2019      10:33

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O conto tradicional Alentejano, a narrativa de todos e para todos

– Queres um conto de rir, ou de chorar?
– Quero de rir.
– Abre a boca e deixa-o ir.
– Quero de chorar.
– Abre a boca e deixa-o entrar.

(Dito popular)

Continuando a nossa viagem pelo incrível “mundo” da cultura alentejana, pelas suas gentes, tradições ou costumes, vamos desta vez ao encontro do que de mais genuíno ainda sobrevive na literatura de transmissão oral – os contos.

Da sua origem, essência e propósito, é por ventura nas crianças que devemos centrar o nosso foco de análise e sensibilização, até porque, o tema está umbilicalmente ligado não só a hábitos de leitura, como de socialização familiar. Constatamos que na sociedade atual as rotinas de leitura em família são cada vez mais escassas e que, o tempo, ou a falta dele é também motivo para que hábitos se invertam. Uma inversão dramática e com graves repercussões no crescimento intelectual das nossas crianças, afetando o seu desempenho escolar, criatividade, socialização, vocabulário e ligação ao seu ambiente exterior. O conto, a sua leitura e oralidade, ligam-nos não só ao contexto popular de grupo, mas também ao verdadeiro encontro familiar - o “serão”. Noites em que miúdos e graúdos de forma genuína contavam e liam contos, promovendo laços afetivos ímpares de âmbito familiar. Sinto vontade de perguntar… Lembram-se? Quantos de vós ainda o fazem apesar de estarmos reféns do tempo?

O conto é mais um grande “tesouro” a preservar na região e tenho a certeza que as nossas crianças são o veículo perfeito para que assim seja. Estas narrativas, de carácter curto e fictício, moralizadoras e lúdicas, com personagens atraentes, remetem-nos para um tempo longínquo e carregado de simbologia, dando por si só um caráter estimulante e motivador aos mais pequenos.

Não nos esqueçamos também da importância que o conto tem nos mais variados territórios da região, pois é parte da nossa cultura, suportando a tradição oral de um povo (PARAFITA, 1999). É uma narrativa que, com origem em classes mais desprotegidas sob o ponto de vista literário, circula oralmente de geração em geração e em que algumas vezes não existe qualquer registo escrito. São processos de transmissão que por norma decorrem em momentos de pausa e que têm a capacidade de mobilizar toda a comunidade.

Por tudo isto, e tal como referi no artigo anterior sobre o jogo tradicional, o poder local e a própria escola, são também dois vetores de vital importância na sua preservação. Promover o seu registo e estimular a sua oralidade em contexto familiar, social e educativo, são um compromisso que poderá salvar o conto por muitas e muitas gerações.

As crianças são verdadeiras “esponjas”, aprendem através das nossas atitudes e ações. Enquanto família somos responsáveis para que, junto delas, não só as sensibilizemos para a salvaguarda do conto popular, como estimulemos para hábitos e rotinas de leitura, ostentando a responsabilidade que esta literatura de transmissão oral merece.  No fim desta nossa viagem, deixo-vos a grandiosa coleção de contos populares alentejanos, recolhidos da tradição oral pelo autor: António Thomaz Pires[1].  Nunca é tarde… vamos começar? Era uma vez…

 

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