29 Julho 2016      16:51

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EMOÇÕES FORJADAS

Eu ontem cheguei de volta ao Brasil, após 3 anos de ausência. À noite, como de costume, na casa onde eu estava, a televisão hd transmitia a Rede Globo. Após a “novela das 7”, veio o Jornal Nacional.

Às vésperas das olimpíadas, obviamente, grande espaço foi reservado a este evento. Por serem rápidos e diversificados, os telejornais ‘globais’ costumam selecionar as suas pautas e organizá-las de maneira a ser criada uma narrativa, elaborada no sentido de despertar no telespectador emoções coerentes com a agenda política da emissora e dos seus parceiros econômicos e políticos.

As emoções, como demonstra a antropologia, podem ser dispositivos para a ação. De facto, as ações derivadas das emoções – ou causadoras delas – assim como o modo como elas impactam o pensamento, compõem a vasta e complexa teia subjetiva que permite a reunião de indivíduos em torno a interesses comuns, bem como a condução, em grande medida atordoada e inconsciente, das populações por grupos organizados.

É pelas emoções que podem ser criadas as chamadas “massas de manobra”. Estas são os contingentes populacionais que, influenciadas por ideias ou interesses alheios, permitem-se orbitar em torno de agendas de grupos de grande poder econômico, oferecendo-lhes as condições para, baseados no “apoio” popular, exercerem pressão sobre outros grupos de poder e influírem sobre as regras do jogo político.

Os grupos mediáticos têm, portanto, um papel importante a cumprir, como braços auxiliares de corporações e oligarquias. São eles que, de forma massiva, trabalham para despertar nas pessoas um anseio condizente com o que pretendem os grupos econômicos que os controlam. No caso da Rede Globo, este papel é cumprido com facilidade, seja porque ela conte com o auxilio de outros grupos de media brasileiros, ou porque, na grande maioria das casas pelo país a dentro, a informação chega aos cidadãos exclusivamente pela tela da televisão.

Numa cultura que estimula o consumismo e a futilidade, os assuntos econômicos e políticos são considerados chatos e tendem a ser assimilados apenas na medida em que são resumidos e interpretados. Os jornalistas passam a funcionar como atores, a sublinharem trechos das suas falas com gravidade, ou a repetirem frases feitas, de maneira a fazerem com que estas se tornem verdades junto aos telespectadores.

Se os jornalistas são os atores, os editores dos telejornais brasileiros costumam atuar como roteiristas. São eles que determinam a ordem com que as notícias serão veiculadas. Mais do que isto, eles selecionam quais informações serão apresentadas, num claro ímpeto censurador dentro das redações. Esconde-se detalhes importantes, lança-se suspeitas baseadas em coscuvilhices e, muitas vezes, mente-se.

Sim, meu caro e minha cara, a Rede Globo é uma mitômana histórica. Volta e meia, surge um desmentido ou a assunção de um ‘pecadinho’ cometido no passado. Um exemplo interessante é a histórica edição que apresentou um resumo do debate presidencial entre Fernando Collor e Lula da Silva, em 1989, poucos dias antes das eleições presidenciais. Há alguns anos, o diretor da emissora à época, José Bonifácio, assumiu numa entrevista que os trechos do debate escolhidos tinham o propósito de enfraquecer a imagem de Lula, porque a perceção geral tinha sido a de que este havia vencido o tal debate. Após esta fatídica edição do Jornal Nacional, o público ficou com a impressão de que Collor estava mais preparado, era mais inteligente e honesto do que o petista.

Fernando Collor, assim como a Ditadura brasileira, devem muito à Rede Globo. Na verdade, ela foi criada para isto: fomentar a cultura das elites dominantes junto aos subalternos, torna-los inofensivos ante um sistema que, historicamente, os explora.

O golpe ora em curso no Brasil é o mais novo produto da sua ação de propaganda. Se, há quatro meses, as edições do Jornal Nacional eram completamente voltadas à demonização da Dilma e dos seus aliados, ontem o que eu vi foi a representação de um país alegre e próspero, com gestores responsáveis e íntegros. Agora, em vez do medo e da raiva, o Jornal Nacional cultivava a placidez e a acomodação das massas. Obviamente, é preciso que haja motivos para a revolta, contudo boa parte da sensação de pacificação que as classes médias sentem atualmente é tão artificial quanto o foram o ódio instalado meses atrás.

No fundo – e as pesquisas indicam isto – as pessoas sequer se deram conta do que lhes aconteceu, politicamente. Pensam que a Dilma foi deposta por corrupção, enquanto apenas 30% dos recentemente entrevistados por um dos institutos de pesquisa sabiam dizer o nome do presidente interino. Estes dados indicam que o apoio popular ao impeachment da Presidenta foi fruto de um bem cuidado script jornalístico sobre as emoções populares.

Navegando num mar, ora revolto ora calmo, de emoções insufladas pela televisão, seguem incautas e ignorantes enormes parcelas da população brasileira. Ainda que tenham se beneficiado grandemente das políticas públicas dos últimos anos, estas massas trabalharam contra elas, movidas por sensações obscuras. Agora, mantidas em banho maria pela exibição de um país de maravilhas, sentem que fizeram alguma coisa errada, porém o Brasil lhes parece tão mais calmo e aquela ansiedade odiosa já não lhes atormenta.

Enquanto isto, os ratos reocupam o navio. Que navio? Que ratos? Vamos é falar sobre as olimpíadas, espreitar a “solidariedade” de um projeto social qualquer, ou descobrir onde comer um cupcake delicioso em Nova York.

Imagem de capa de @ALAMI, daqui.

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