30 Março 2018      13:58

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E se Hannah Arendt fosse viva?

Hoje vou imaginar cenários inviáveis.

Se Hannah Arendt cá estivesse o que pensaria e escreveria sobre o que se está a passar na Síria, em Myanmar, no Afeganistão, Turquia, Venezuela, Brasil…O que escreveria ela sobre o assassinato de Marielle Franco, sobre a crise dos refugiados, sobre as políticas racista e xenófoba?

Sabendo que somos todos diferentes e que, é na pluralidade e nas mestiçagens que nos tornamos livres, democráticos e tolerantes, só podemos encarar esta alteridade como algo com enorme significado nas nossas vidas.

As atuais realidades em que nos impõem vivermos, obriga-nos ao coisificar de verdades que, por vezes, entram em confronto com as verdades das nossas liberdades.

Se Hannah Arendt fosse viva certamente nos brindava com escritos em que a banalização do mal era transportada para outros lugares. Como se existisse uma banalidade do mal global em que a crença na realidade da vida e a realidade do mundo não são a mesma coisa. Se na maioria dos casos, as nossas vidas só de nós dependem e as vivências societárias transcende, por vezes, o nosso entendimento do mundo.

Deixando-nos inúmeros escritos os seus pensamentos não podiam estar mais atuais. Ao escrever sobre totalitarismos e Direitos Humanos não os encara como algo informal, explica-nos de modo claro e esclarecedor muitos dos fenómenos que estão a acontecer neste do século XXI. Não vivemos em regimes nazis nem estalinistas mas, algumas das nações vivem regimes muito parecidos aos descritos e pensados por Hannah Arendt.

Olhando para a ascensão dos racismos e intolerâncias que está na base de muitos dos atuais conflitos, Mamadou Ba é muito claro quando afirma que, esta já não é uma questão de ignorância mas o resultado das atuais relações de poder. Não podia estar mais de acordo, a ignorância não pode continuará a ser desculpa para a continuação do fechar de olhos a estas políticas é preciso alterar as relações de poder. Ao assumirem uma determinada identidade, as ideologias ficam prisioneiras de conceitos e aqui surgem novas banalizações do mal.

O que pensaria Hannah Arendt sobre os recentes acontecimentos no Brasil?

Talvez que o mal se tornou banal. Os comportamentos extremistas e antidemocráticos assumem proporções galopantes. Esta tolerância para com a banalização do terror autorizado, vai relativizando ditaduras contribuindo para a sua normalização. Uma estupidificação enraizada só ganha espaço através de uma espécie de ortodoxia do momento onde, uma de errância de pensamentos assume protagonismos excessivos. Constroem-se espirais de ideias que ao assumirem valor experimental encerram comportamentos adversos aos valores das democracias representativas.

Se Hannah Arendt fosse viva talvez se tornasse uma espécie de arqueóloga das ideias, em que, deparando-se tantas vezes com a banalização de tantos males os transformaria em algo que, ao terem o seu início em tempos idos sobrevivem no presente.

O princípio da coerência começa a deixar de existir, já ninguém pensa em se suplantar pelas ideias e os acontecimentos sucedem-se sem que ninguém sobre eles reflita, como Hannah Arendt tão bem o fez.

Imagem de capa de MIGUEL A. LOPES/LUSA

 
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