D. Pedro Fernandes rejeita mitos sobre migrações e alerta para o crescimento do medo no Ocidente.
Em entrevista conjunta à Renascença e à Agência Ecclesia, que antecede o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o líder da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, D. Pedro Fernandes, assumiu uma postura firme de combate à desinformação, sublinhando que as afirmações que classificam os imigrantes como um problema para o país não correspondem à verdade. O bispo de Portalegre-Castelo Branco defendeu que, embora a população portuguesa seja maioritariamente acolhedora e inclusiva, as sociedades ocidentais enfrentam atualmente uma vaga de insegurança que tem alimentado discursos populistas.
O responsável máximo da comissão episcopal explicou que as narrativas discriminatórias, a xenofobia e a manipulação de dados estão fortemente vinculadas a quadrantes ideológicos de extrema-direita. Contudo, manifestou maior preocupação com a propagação de um receio coletivo e abstrato entre os cidadãos, o qual propicia a procura de culpados fáceis e soluções imediatistas para problemas complexos. Instado a comentar as recentes alterações legislativas em Portugal, que tornaram as políticas migratórias mais rígidas, o clérigo advertiu para o perigo de o poder político ceder a pressões extremadas, lembrando que a gestão deste fluxo deve priorizar a justiça social e a dignidade humana.
Ao contestar os argumentos de quem invoca valores católicos para fundamentar restrições severas à imigração, D. Pedro Fernandes reiterou os ensinamentos da Igreja, sustentados nos quatro pilares propostos pelo Papa Francisco: acolher, proteger, promover e integrar. O bispo detalhou que o acolhimento exige vias legais seguras e menos burocracia na concessão de vistos para evitar redes de tráfico; a proteção foca-se na garantia dos direitos humanos fundamentais; a promoção visa dotar os migrantes de ferramentas para o seu desenvolvimento; e a integração foca-se na harmonia cultural e no reagrupamento das famílias.
No que concerne ao papel das instituições eclesiais, o presidente da comissão enfatizou a importância de a Igreja manter uma voz ativa na denúncia de injustiças, sempre em estreita articulação com o trabalho já desenvolvido no terreno por organizações como a Cáritas, o Serviço Jesuíta aos Refugiados ou a Obra Católica das Migrações. O prelado concluiu que a grande missão da Igreja passa pela formação das comunidades e pela desconstrução de mitos baseados em estatísticas falsas, promovendo um diálogo construtivo com o Estado com base nos princípios do Evangelho e da doutrina social, sem qualquer teor político-partidário.
