A mesa administrativa demissionária da Santa Casa da Misericórdia de Serpa (SCMS) afirmou publicamente que o seu plano para salvar a instituição financeira e operacionalmente falhou devido a interferências e dogmas políticos. A direção, liderada pela provedora Maria Isabel Estevens, demitiu-se em bloco no final de julho após os associados rejeitarem uma proposta de parceria de gestão partilhada com o grupo privado LA Health.
A administração explicou que a sustentabilidade da instituição depende da rentabilização da Unidade Médico-Cirúrgica. Contudo, perante a recusa do Estado em integrar o Hospital de São Paulo na Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA) e a falta de soluções por parte da União das Misericórdias Portuguesas, a única alternativa viável era encontrar um parceiro privado com capacidade financeira. O objetivo do acordo passava por garantir uma renda regular para cumprir as obrigações do Processo Especial de Revitalização (PER) e afastar o risco de gerir uma área de saúde deficitária por falta de profissionais.
A provedora demissionária denunciou a instrumentalização do voto de rejeição na assembleia-geral de 27 de julho. Apontou culpas à atuação do sindicato dos trabalhadores e a reuniões secretas conduzidas pelo executivo da Câmara Municipal de Serpa com os funcionários da instituição, realizadas sem o conhecimento da mesa administrativa. Para a antiga direção, as acusações de má gestão servem apenas para branquear o passado, alertando que o bloqueio a esta parceria privada coloca em risco a execução do PER, o futuro da instituição secular e a segurança dos utentes mais vulneráveis.
Por outro lado, o chumbo da parceria com os privados e a demissão em bloco reacenderam o debate político sobre o modelo de gestão da saúde na região, que remonta a 2014, altura em que o Estado devolveu o hospital à gestão da Misericórdia. O PCP reagiu formalmente na Assembleia da República, questionando a Ministra da Saúde sobre a crise financeira e operacional que afeta a SCMS e exigindo o resgate público imediato e o regresso definitivo do Hospital de São Paulo ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). O partido argumenta que uma década de gestão partilhada resultou em fragilidade financeira, atrasos nos salários e falhas graves na prestação de cuidados médicos. O PCP alertou ainda que o colapso financeiro ameaça as restantes respostas sociais da Santa Casa, como a Unidade de Cuidados Continuados, o Apoio Domiciliário e o Lar.
Em sentido oposto às críticas da mesa demissionária, a Câmara Municipal de Serpa considerou que a rejeição da parceria com o grupo privado é um sinal inequívoco de que a instituição necessita de encontrar um novo rumo estratégico para garantir o seu funcionamento.
