Tribuna Alentejo
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Colunistas

O infantil

Desde que tive contacto com a obra de Natália Correia, despertou em mim uma curiosidade profunda pela sua escrita e pela sua figura pública e política. Confesso que os livros de Fernando Dacosta foram essenciais para me guiar nesse percurso, oferecendo um retrato íntimo através dos olhos de quem lhe era próximo e a acompanhou numa fase importante da vida.

Dizem os que a conheceram que Natália estava à frente do seu tempo. Sem formação académica convencional, rasgava épocas históricas e literárias com uma erudição rara. Os registos de áudio e vídeo que restam confirmam esse saber e revelam uma autora singular, que não se encaixava nos moldes habituais. Entre o mítico e o transcendente, há muitas razões para acreditar que a sua obra ultrapassa o plano do tangível, tocando zonas de conotação metafísica.

Mais recentemente, deparei-me com Uma Estátua para Herodes, publicada no ano da Revolução de Abril. Entre as múltiplas camadas desta obra, impressionou-me especialmente a crítica metafórica, e de certo modo visionária, que faz a uma certa infantilização da sociedade da época, abrangendo o campo social, político e mediático.

É inevitável, ao lermos críticas de um tempo passado, traçar, justamente ou não, paralelismos com a atualidade e perguntar: como se posicionaria Natália em relação ao nosso tempo? Como reagiria à sociedade tecnológica, à velocidade da informação, às novas formas de comunicar e aprender? O que diria sobre o impacto das tecnologias na política e na formação da opinião pública?

Olhando em retrospetiva, pode parecer excessivo considerar infantil a sociedade de há 50 anos. Mas Natália via sinais de uma infantilização crescente, promovida e alimentada por estruturas de poder. Hoje, talvez constatasse que esse processo não só se confirmou como se agravou.

Vivemos uma política feita de mecanismos inovadores, onde o contacto direto com o cidadão dispensou o intermediário tradicional. Os meios de comunicação convencionais lutam por adaptar-se a esta nova realidade, e são cada vez mais rejeitados por uma parte da população que deposita fé cega em figuras com quem se identifica emocionalmente, rejeitando, por reflexo, qualquer contraditório, mesmo factual.

Somos, de facto, mais infantis. Quando um líder político opta por dançar no TikTok para aumentar a sua popularidade, é porque o gesto performativo vale mais do que o pensamento ou o discurso. O conteúdo tornou-se dispensável: quanto mais curto o vídeo, maior a hipótese de viralizar; quanto mais simplista a mensagem, maior o seu alcance.

Natália Correia acreditava que a cultura era uma força política e espiritual, e que a ignorância organizada era uma forma de dominação. Se hoje aqui estivesse, talvez nos perguntasse, com a ironia feroz que a caracterizava, se não estaremos a construir um mundo em que a informação se tornou ruído, e a liberdade, um espetáculo. Porque, para Natália, pensar era um ato de resistência, e resistir, hoje como ontem, continua a ser urgente. Felizmente temos o seu exemplo.  

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