16 Outubro 2015      15:10

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A SINGULARIDADE DE UMA CONTADORA DE HISTÓRIAS

Tratam-na por Bru Junça e é uma contadora de histórias natural de Évora que, entre linhas, agulhas, tecidos e palavras, cria um mundo imaginário baseado em contos, lengalengas ou canções da tradição oral. Lagarto pintado, História da Carochinha, Cabaça... são algumas das personagens que povoam os seus livros feitos à mão, que permitem uma aproximação das novas gerações à época em que os seus avós foram também eles crianças.

 

Tribuna Alentejo – Bru Junça é um nome bastante singular. Começo por uma pergunta difícil: quem é a Bru Junça?

Bru Junça – O Nome Bru é uma história muito antiga... Quando ainda era moça pequena gostava de contar as estórias de uma senhora chamada Brunhilda e, desde então, os amigos foram-me dando essa alcunha, primeiro Brunhilda, depois Bru e assim ficou. Falar sobre mim, em relação ao meu trabalho, não é fácil... só consigo avaliar-me por dentro, por aquilo que me move e nunca pelo olhar do outro, pelo que de mim chega ao outro. No meu trabalho julgo que se nota uma busca pela simplicidade e o gosto pelo simples, bem como pelos pequenos pormenores que penso fazerem a diferença. Há uma grande ligação minha à terra, às minhas raízes que julgo que transparece nos contos que conto, pela forma como conto, pelos livros que escolho, bem como no lado estético dos livros de pano que construo. Em paralelo tento, sempre que conto, ter uma disponibilidade de estar, de ouvir e de alma para com quem me escuta. Não sei se isto chega ao outro lado mas são características da minha personalidade, como pessoa, que sempre coloco ao serviço daquilo que faço.

 

Tribuna Alentejo – Lembras-te da primeira vez que contaste uma história? Como foi essa experiência?

Bru Junça – Lembro... Formei-me em Educação de Infância e contar histórias era algo que fazia no meu dia-a-dia enquanto educadora. Fazia não só para os meus alunos como também ia contar a turmas de alguns colegas, da mesma ou de outras escolas. No entanto, a primeira vez que contei para um público que não os meus alunos foi numa associação sediada em Évora - É Neste País - uma associação onde contei e conto muitas vezes. Lembro-me das histórias que contei, do nervosismo e da falta de prática.

 

Tribuna Alentejo – Quando descobriste que querias ser contadora de histórias?

Bru Junça – Acho que essa descoberta é algo que vou alimentando e descobrindo todos os dias, sempre que conto. No entanto, a minha paixão pela partilha de histórias numa perspectiva de mediação de leitura nasceu nas aulas de Língua Materna que, na altura, frequentava na Universidade de Évora, onde conheci livros infantis de grande qualidade, quer a nível textual quer a nível pictórico. Foi na mesma altura em que em Portugal também se assistiu a um "boom" no que respeita à edição de livros para um público infanto-juvenil, começaram a surgir edições com linguagens mais arrojadas. Em paralelo, nesta altura, conheci duas pessoas que rasgaram-me os horizontes e o olhar par um mundo que eu desconhecia. Jorge Serafim, o primeiro contador de histórias que ouvi, um grande mediador de leitura e Cristina Taquelim, também uma grande mediadora de leitura. Até então não sabia que havia pessoas que trabalhavam e se dedicavam a partilhar contos para acordar consciências e foi assim, pelo eco das vozes que ressuaram dentro de mim, destes dois contadores de histórias, que cheguei ao grande encontro Palavras Andarilhas. Neste encontro percebi que uso da palavra é algo tão simples, pois todos o fazemos mas, ao mesmo tempo, uma forma de arte capaz de chegar a todos de uma forma tão profunda e intensa, capaz de despoletar várias emoções. Mas apesar do fascínio e do respeito que adquiri, nessa altura, pelo trabalho dos contadores de histórias, dos mediadores de leitura e pelos narradores da tradição oral nunca pensei que, por questões pessoais, esse sonhalizar um sonho – caminhar sonhando - me fosse possível.

 

Tribuna Alentejo – Quando e como nasceu a Conto por Ponto?

Bru Junça – O Conto por Ponto nasceu quando comecei a ter solicitações para ir contar para as faixas etárias muito pequenas – creche. Aqui deparei-me com uma lacuna que existe no campo editorial português, há uma grande falta de livros de qualidade para estas faixas etárias. Então foi aqui que decidi construir os livros para contar e mediar nestas sessões. Foi inicialmente um trabalho de pesquisa e de perceber o que queria fazer, qual a intenção, qual o intuito dos livros e das leituras que poderia fazer a partir deles.

 

Tribuna Alentejo – Em média, quanto tempo demoras para terminar um livro? És tu que fazes tudo sozinha?

Bru Junça - Tudo passa por mim, desde a escolha das narrativas, à escolha dos panos, do formato do livro à própria confecção. Quanto ao tempo, depende. Há livros que me levam quatro a cinco horas mas tenho outros que me levam cerca de vinte e cinco horas e os maiores mais de trinta horas, seguramente.

 

Tribuna Alentejo – Para além da venda dos livros que produzes, este projeto tem ainda uma outra vertente, que é a de contares as tuas próprias adaptações das histórias, dos contos... a grupos. Como tem sido a recetividade da parte desses grupos?

Bru Junça – Os livros de pano nasceram da minha necessidade em querer contar e encontrar narrativas para um público específico. A primeira questão com a qual me deparei, atendendo a faixa etária a que me queria dirigir, foi: que narrativas? Então fui buscar à minha memória de infância e ao meu trabalho como educadora, qual o tipo de textos orais que contava. Deparei-me com as lenga-lengas, as canções e também alguns contos tradicionais. Textos que mexem com a repetição, com o ritmo, com a palavra... Agarrei nesse material e tentei transpô-lo para pano numa linguagem que tivesse a ver comigo, com o meu sentido estético e que servisse ao meu intuito – contar, mediar os contos e as pequenas narrativas. Ao longo das sessões que fui fazendo, para várias faixas etárias, fui percebendo que os "meus" livros de pano vão abraçando outros públicos, inclusive adultos, talvez por serem parte de um património oral mantêm-se vivos dentro de quem os ouve e há uma memória afectiva que é acordada quando falamos de público adulto, penso.

 

Tribuna Alentejo – Se um/a dos/as nossos/as leitores/as quiser comprar um dos teus livros, como deverá fazer? E se quiser ouvir-te contar um conto? Quais os passos que deve dar?

Bru Junça – Os livros podem ser adquiridos através de um contacto mais directo comigo, através da página de facebook conto por ponto, bem como o contacto para sessões.

 

Tribuna Alentejo – Que expetativas tens para a Conto por Ponto? Até onde gostarias que ela fosse?

Bru Junça – A minha expectativa principal é que saiba, entre panos, encontrar e ir afinando cada vez mais e melhor a linguagem das narrativas que escolho para que, através dos padrões e das texturas, o trabalho de mediação resulte.

 

Tribuna Alentejo – Queres deixar alguma mensagem para os/as nossos/as leitores/as?

Bru Junça – "Contar histórias é dar colo!" Cristina Taquelim

 

Fique a conhecer um pouco mais em https://www.facebook.com/pages/Conto-por-Ponto/514018625359541

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