18 Abril 2021      13:38

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Cartas Soror Mariana traduzidas para espanhol

As famosas “Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado” surgem agora com uma nova edição em Espanha pela mão do historiador e museólogo português José António Falcão, responsável pela introdução.

Com tradução de María Jesús Fernández e edição da La Umbría y la Solana, este clássico da literatura nascido com origem em Beja, tem nesta edição  mais um contributo para a internacionalização de uma obra singular, com epicentro em Beja, Alentejo.

A editora espanhol considera que “as Cartas Portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado (1640-1723), freira no convento da Conceição de Beja, são um clássico da literatura universal, traduzidas em inúmeras línguas. À escala global surgem todos os anos centenas de novos títulos, nomeadamente edições das epístolas, teses de doutoramento e mestrado, livros, ensaios, artigos científicos, textos de ficção, poesia ou teatro, peças musicais ou obras plásticas.”

Foi detrás de uma janela gradeada de um convento de Beja, que em 1666, Mariana guardava uma paixão profunda e não correspondida e que se viria a tornar do conhecimento universal através de cinco cartas escritas a um jovem oficial da cavalaria francesa, Nöel Bouton, Marquês de Chamilly e, mais tarde, Conde de S. Saint-Lèger.

Dessas cartas não existem originais e só pela tradução de Claude Barbin, “Lettres Portugaises Traduites en François”, de 1669, se soube da sua existência. As edições sucederam-se em vários países europeus e, segundo Godofredo Ferreira, estudioso e colecionador das obras sobre as cartas, em 1923 existiam já 130 edições destas cartas em diversas línguas: francês, inglês, italiano, alemão, espanhol, dinamarquês, holandês e português e foram inspiração para poetas, filósofos, escritores, cineastas, artistas plásticos, músicos e muitos apaixonados.

Nascida em 1640, em Beja, Mariana Alcoforado entrou aos 11 anos para o Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja, confinada a um espaço físico de 100 passos e que viria a ser espaço suficiente para um amor "grande demais para um só ser" pelas palavras do poeta Reiner Maria Rilke.

Foi noviça, escrivã e vigária, chegando a ser proposta, em 1709, para Abadessa do Convento, tendo sido derrotada por dez votos.

Morreu em 1723, com 83 anos de idade, após 72 anos de reclusão no Convento e deixou-nos uma das mais belas histórias de amor do mundo como legado, como revelou o editor francês Claude Barbin, que relatou o amor e o desamor no desencontro entre uma freira e um cavaleiro oficial francês.

O exemplo de Mariana Alcoforado levantou e levanta a várias questões sociais como a condição de género, a posição social, a sobreposição de um destino imposto à liberdade para escolher.

José António Falcão revelou ao TA que “Mariana foi vista, já no tempo em que viveu, quando o seu vulto era ainda bastante impreciso para a maioria dos leitores, como um símbolo maior do ‘amor-paixão’, fulcro de um tema literário de repercussão internacional” e que “Dir-se-ia que, nas últimas décadas, a vaga da paixão que rodeia as Cartas Portuguesas não só continuou, como não parou de crescer. Há cada vez mais leitores desta obra, o que não surpreende. Estamos a falar de uma das grandes histórias de amor, mas um amor revolucionário, que escapa aos lugares-comuns e se revela muito atual. Mariana é, em larga medida, uma contemporânea nossa. Arguta, corajosa, inteligente, sensível, enfrentou corajosamente as convenções do seu tempo, elevando o amor a um patamar superlativo, existencial, sem o qual a vida carece de sentido. Mas, ao mesmo tempo, lúcida como era, compreendeu e aceitou as limitações desse amor. É uma lição de vida impressionante, que ainda hoje arrepia”,  

No catálogo da La Umbria y la Solana é “especializada” em traduzir literatura portuguesa e conta com obras traduzidas de autores como Lídia Jorge, João de Melo, Carlos Reis, José Saramago, Almeida Faria, Dulce Maria Cardoso, Mário Cláudio, José Luís Peixoto, Ruy Lage, Antero de Quental, Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Eça de Queirós.

 

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