11 Junho 2017      10:46

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PATRICK MODIANO: O ÚLTIMO A SAIR DE CASA?

"DESVIOS E RESPECTIVOS ATALHOS: FILMES, LIVROS E DISCOS"

Patrick Modiano era um nome desconhecido para muitos quando em novembro de 2014 lhe atribuíram o Prémio Nobel da Literatura. Lamentavelmente incluía-me nesse grupo. Como sempre acontece nesses casos, a partir do galardão sucederam-se as edições e a descoberta tornou-se obrigatória. Chegou tarde, mas chegou pelo que os lamentos terminam aqui.

Livros breves, são raros os que ultrapassam as cem páginas, e que ousam começar num ponto que podemos definir por qualquer. Começam ali como poderiam começar noutro lado. Há um rasgo (contido em muito pouco, mas ainda assim um rasgo) que despoleta uma memória que só por um muito ténue fio de espaço-tempo-âmago se distingue de todas as outras, ténue filamento que não podemos de imediato apreender. Modiano é alguém que entende a virtude da subtileza, diga-se. Vamo-lo percebendo em frases simples, quase sempre curtas e numa escrita escorreita que parece eliminar todas as outras hipóteses de o colocar como ideia. É quase sempre um pensamento, mas também pode ser o instante de um sonho.

Daí, Modiano encaminha-nos para onde tivermos de ir pela necessidade da sua personagem. Todavia, se as areias onde o leitor se balança são movediças, não o são menos para a pobre personagem, que parece saber de si tanto (enfim, tão pouco) quanto o leitor. Não sabe porque fez por esquecer, como agora é forçoso que redescubra. E nós com ela, com a vantagem de o caldo arenoso do pantanal nos dar pela cintura quando a pobre personagem já o tem pelo pescoço.

Mas que não se pense que Modiano nos poupa. Por exemplo, no seu último romance,

Para que não te percas no Bairro (Pour que tu ne te perdes pas dans le quartier), o que começa como uma intriga policiária para a qual somos naturalmente chamados, onde na altura que tomamos como certa aparecem palavras como chantagem e homicídio, onde se fala de reuniões misteriosas com personagens misteriosas numa casa de campo de contornos míticos, sem que disso nos apercebamos (a não ser quando já é demasiado tarde) vai-se transformando na viagem ao labirinto da mente de uma criança que ficou por crescer e agora tem o corpo de um sexagenário; e no final, sem chantagens nem homicídios, sem personagens fabulosos em ambientes míticos, tudo e todos atirados para um canto, resta a aterradora memória do dia em que o personagem ficou sozinho em casa. Com tudo o que terá ficado por dizer sobre as coisas que julgávamos importantes…

 

Imagem de bibliotecariodebabel.com

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