2 Setembro 2017      11:07

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O CACHIMBO DA PAZ

"PARALELO 39N"

Andavam todos contentes. Mais contentes do que os dias anteriores em que também tinham andado contentes. Era uma alegria, a felicidade, uma coisa tão grande vista do céu. Era isso, o regozijo das pessoas que estavam contentes e uma nuvem de fumo. Ora, era precisamente essa nuvem de fumo que se chamava assim pela junção das duas componentes da designação. Andavam todos contentes. Saltando e cantando. Mais contentes do que na semana anterior, porque nessa semana não tinham andado aos saltos e nem tinham cantado.

Não era a nuvem de fumo que os fazia contentes. Essa nuvem vinha diretamente da lareira que aquecia as noites de inverno, no meio do nada, ardendo uns troncos de árvores que deixaram de alimentar a ideia de um dia cair uma gota de água. Quando se diz nada, quer dizer-se uma data de arbustos que vivem no meio da terra seca do deserto. Bem, a lareira aquecia as pessoas que à volta dela se sentavam e isso fazia com que ficassem contentes. Podemos afirmar com alguma certeza que a nuvem de fumo representava a sua felicidade e a alegria se consumia nas chamas e nos troncos. Era assim ali e em muitos outros lugares, quando o frio apertava e não existia uma casa, ou um abrigo. Até mesmo quando o ar condicionado se avariava ou, não havendo, a simples salamandra lá de casa ou o aquecedor.

Até aposto que estão a visualizar uma série de índios sentados no meio do deserto nos Estados Unidos. Tem tudo, lareira, nuvens de fumo, deserto, o título da crónica… até já se imagina o final. Discutiram-se uma série de assuntos e chegou-se à paz, e como aparece nos filmes de rapazes das vacas (cowboys em americano), fumava-se um cachimbo e declaravam-se tréguas. Nada disso. Longe disso. Tratava-se só do introito.

A narrativa que aqui se narra é a de uma zanga entre duas vizinhas. A Dona Malícia e a, ainda relacionada por laços familiares, a Senhora Osa. Se fossem uma só seriam Maliciosa. Mas não eram. Eram vizinhas da mesma rua. Prédio frente a frente, porta com porta e janela a dar para a casa uma da outra. Facilitava. Escusavam de se esgueirar tanto para saber da vida uma da outra. No fundo, no fundo até nutriam algum afeto. Algum, não muito. Uma fumava. A Outra não. Naquele dia, as vassouras movimentavam-se mais depressa. Os olhos das comadres deitavam faíscas. Uma delas tinha acendido a lareira no meio da rua. Não fazia mal, não passavam ali carros e os gaiatos aproveitavam por saltar as fogueiras como se fosse a véspera de Santo António ou São João. Andavam todos contentes e saltavam de um lado para o outro. Das fogueiras saía o tal fumo em forma de nuvem e as comadres, vá-se lá saber porquê, andavam prestes a rebentar.

Nisto, uma delas solta o grito que era necessário e o leitmotif, que parecia uma coisinha de nada, o filho do casamento da outra e o casamento do filho desta e aquilo entrou em histeria. Atacaram-se verbalmente de tal forma que ninguém na rua ficou imune. Naquele quarteirão todas fecharam as janelas e nem um vizinho ousou abrir as portadas. Pelas gretas, olhinhos e mais olhinhos. Os gaiatos não ligaram muito. Continuaram a saltar enquanto a trovoada de palavras mais e menos polidas continuavam a saltar das gargantas acesas. Se fossem cantar o fado não tinham tanta disposição. Era daquelas discussões que, obviamente, não dariam em nada. Nunca em tempo algum se tinha chegado a conclusões.

Vira práqui, sacode práli, descose a camisa, baixa a saia que é muito curta, desancaram as feições. Aquilo parecia não ter solução. Imbuídas da gravidade, já o raciocínio as deixara, quando começou a chover e tiveram de se recolher aos aposentos, remoendo na ideia e insultando a outra por uma coisa que não era nada nem teria um efeito maior do que uma bola de neve no meio de um dia de verão, rebolando pelo alcatrão quente.

Recolheram não sem antes a vizinha comadre Malícia jogar o cachimbo às costas da Osa, desfechando um golpe traiçoeiro que lhe acertou na pá. A zanga continuou dentro de casa. Na de cada uma. Era preciso continuar mas havia também outras prioridades. Lá continuaram sem desfecho. Não sei o que aconteceu no decorrer do estoicismo de ambas. Sei que os gaiatos continuaram a brincar na rua, à chuva, a ver a fogueira a esvair-se e transformar-se só na nuvem de fumo. Assim iria também, pensamos, a zanga das comadres, numa nuvem de fumo, no nada. 

 

Imagem de museumoftheamericanwest.com

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