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O CAMINHO DA FORMIGUINHA

Era uma vez uma formiguinha. Não, duas. Uma formiguinha e outra formiguinha. Detestavam-se uma à outra. Não se podiam ver. Aquilo que sabiam uma da outra era que não havia nada de interessante em ambas que pudesse mudar a opinião das congéneres. Eram duas simples formiguinhas, tão iguais a todas as outras que eram iguais a estas. Pretas, com grande rabo, tenazes no focinho e duas pequenas antenas.

ABERTAS AS CANDIDATURAS AO PRÉMIO FLORBELA ESPANCA

O Prémio Literário Florbela Espanca já está a aceitar candidaturas e a data limite é 15 de setembro.

Este é um prémio bienal – da responsabilidade do Município de Vila Viçosa, terra da poetisa – é com o valor de 2 500 euros e a publicação da obra com a chancela da autarquia.

O objetivo deste prémio é o de homenagear a obra da autora do “Livro de Mágoas” e do “Livro de Soror Saudade”, Florbela Espanca – nascida em Vila Viçosa a 8 de dezembro de 1894 - e podem concorrer obras literárias inéditas, este ano de ficção, e escritas em português.

O INEXPLICÁVEL

O rapaz escrevia como um verdadeiro legislador, embora não o fosse, nunca tivesse sido e não percebesse a mínima coisa sobre leis. Mas mesmo assim, descontente ora, relaxado outrora, escrevia coisas tão certinhas como as palavras dos diplomas legais.

ARJAMOLHO

Fui de férias a Portugal em pensamento. Na ideia, há tanto tempo que não pisava o chão do aeroporto de Lisboa. Há muito tempo que ansiava pelo Sol de Lisboa, pelas praias do Algarve e pelas planícies douradas do Alentejo. Nos campos doirados, as árvores verdes e castanhas, algumas alaranjadas pela tirada da cortiça. No Algarve, as laranjas de Silves e de todos os lados. Algumas da baía, outras doces, tão doces em que a vitamina C se transformava em açúcar e deliciava os lábios de todos.

O LOGÓTIPO

Cada vez que se sentava, a secretária tinha o cuidado de arrumar as folhas em pastas e as pastas em gavetas e as gavetas alinhadas no seu compartimento que era, no fundo, uma pequena coisa, comparada com o edifício todo. Parecia, uma pequena formiga num prédio que era um gigante formigueiro.

EM BANHO-MARIA

Conduzia um Lamborghini verde alface e usava umas jardineiras. Já ninguém usava jardineiras de ganga com all-stars, daquelas jardineiras que não chegavam bem ao fundo porque estavam dobradas. O carro era baixinho, mas andava a uma velocidade que, comparada com a de um caracol, multiplicada por uns bons milhares, dava muito tempo.

COSTELETINHAS DE BORREGO

O tipo era muito sossegado. Não dizia uma palavra sem pensar nos múltiplos sentidos que essa mesma palavra pudesse ter e nas consequências, nos atos e nos efeitos da semântica proverbial que se acumulava nas intenções do pensamento, a meio que a fugir para uma condensação demasiado hermética das suas ideias. Tinha sempre um fato preto vestido, com uma gravata também preta. Tinha óculos, envergava, no inverno, uma capa escura e usava um chapéus e os óculos eram escuros. Era, resumindo, uma figura meio estranha do panorama da intelectualidade da vila onde vivia.

TINHA A MANIA DOS VERBOS

O marafado do gaiato era esperto e ligeiro como as cobras. Andava sempre à cata de conseguir saber mais e de fazer melhor. O marafado do moço, ou o moço marafado, era da cidade. Tinha a esperteza e a sageza de quem convive há muito com o desenrascanço. Podia ter-lhe dado para pior, podia não saber muito na escola. Mas tinha a escola da vida.

A ALBARDA

Aquilo era uma cidade cosmopolita, cheia de gente em movimento, lojas e lojas, umas grandes e grandiosas, outras pequenas e gourmet. Aquilo era uma cidade em movimento, um não parar de gente que sempre apressada, nunca parecia contente.

REVISTAS

A Dona Giralda apressou-se a sair de casa naquele dia. Bem, naquele dia e todas as semanas no mesmo dia, à mesma hora. A Dona Giralda, filha do Senhor Giraldo, senhorio de muitas casas na vila, mas já falecido há muito anos, era uma senhora que, sem nunca ter casado e sem filhos, vivia sozinha no casarão, com a ajuda da Dona Rosário que sempre a acompanhara toda a vida, como governanta da casa.

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