16 Janeiro 2021      13:01

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2088

Este é o ano de 2088. Há coisa de 20 anos, o mundo mudou. As razões porque mudou não se sabe bem ao certo, nem nunca se saberá. A mudança foi tão radical que praticamente toda a água se evaporou e desapareceu.

Parece um filme de ficção científica já tantas vezes repetido. Uma história que tantos previram já. Daria um bom romance ou um grande filme.

Ora, se a água deixou de existir em toda a terra, o planeta deixou de ser azul e passou a ser castanho. As árvores desapareceram, nas cidades todas as casas ficaram vazias, e com o passar do tempo sucumbiram. Não levou muito tempo a que isso acontecesse.

A primeira grande baixa e extinção foi o desaparecimento animais marinhos, seguidos dos seres humanos. A sua necessidade de consumo de água, sem uma solução que a ciência pudesse substituir levou a o fim da primeira espécie de muitas outras espécies.

Mês após mês, foram desaparecendo os animais mais dependentes, depois as plantas e as árvores, os insectos e, por fim chegou aos desertos onde as plantas mais resistentes ainda sobreviveram algum tempo. Um dia secaram de vez.

Nada havia a fazer! A Terra acabara como a conhecemos hoje. Nunca mais seria a mesma. Sem possibilidade de regeneração, de que caísse uma gota de água das nuvens de uma atmosfera que já não existia, era um planeta moribundo. E dizemos moribundo porque no meio do pó e de tudo seco, nem tudo tinha perecido a esta catástrofe.

Havia ainda no mundo, pequenas bolsas de seres que até então tinham sido ignorados e nunca vistos.

Em lados opostos do globo agora deserto, viviam Dipodomys sp, um rato-canguru. Faça Google o senhor leitor para o conhecer. No outro lado, um demónio espinhento que aterrorizava todos com quem se cruzava. Claro que nestes dias, não havia ninguém para se cruzar.

Decidiriam ambos sair da sua área de conforto que me parece uma contradição em termos e, nas suas patinhas, atravessaram terras, cidades vazias, campos sem qualquer árvore e sem qualquer planta, sem uma gota de água. Saltitaram entre e dentro de lugares por onde haviam mares e águas e agora só os restos dos que tiveram existência.

O rato-canguru e o demónio espinhento não sabiam da existência de um do outro. Nenhum deles procurava água porque não precisava. Também, não percebiam porque razão o mundo mudara. Pouco tinham notado a presença das coisas que já não estavam lá porque nunca precisaram delas. Mas houve em cada um deles, uma voz interior que lhes disse que deveriam andar e procurar outros, porque juntos seriam mais fortes.

Anos passaram! Sim, atravessar o mundo leva algum tempo. Sorte a deles que em todo esse tempo não precisariam de água.

Muitos anos mais tarde, num encontro surreal, em que cada um pensava o outro como miragem, aproximaram-se e balbuciaram algumas palavras na sua linguagem. Obviamente, não se entenderam. Também não lhes interessavam as palavras. O facto de estarem acompanhados e se saberem não serem os últimos, apaziguava-lhes o sangue gelado. Deixou de haver tempo. Nem calor nem frio, somente um longo vácuo, onde caminhavam lado a lado um rato-canguru e um demónio-espinhento, sem falarem um com o outro, após o falhanço da primeira tentativa.

E assim foi a história do companheirismo de dois estranhos que caminharam num mundo sem saída, esperando o fim que os esperava.

E quando esse dia chegou, adormeceram próximos e, no dia seguinte, tendo percorrido o mundo duas vezes, juntos, não acordaram e a terra passou a ser mesmo só pó.

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