17 Janeiro 2017      11:33

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O ALENTEJO ESTÁ A CONSTRUIR A SUA REDE DE ESTAÇÕES METEOROLÓGICAS

São uma equipa de apenas 4 pessoas, voluntários empenhados em dar ao Alentejo dados meteorológicos fiáveis e autónomos do IPMA, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, colmatando o que chamam de "falha" no interior do País e que é a "ausência de estações do IPMA". E já ganharam um prémio pelo seu trabalho.

Sem apoio das autarquias, persistem com recursos próprios e ajudas de amigos em instalar uma rede de estações meteorológicas que dê cobertura a todo o Alentejo. Falamos do Luís Mestre, da sua mãe e mentora, a Teresa Mestre e dos amigos Miguel Baião e o José Vargas e do seu projeto METEOALENTEJO.

O Luís tem 24 anos, nasceu em Serpa e é observador meteorológico voluntário do Instituto Português do Mar e da Atmosfera e foi com ele que conversámos para conhecer melhor estes apaixonados da meteorologia. A Teresa Mestre, 52 anos, também nasceu em Serpa e é assistente operacional na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Serpa, entidade parceira deste projecto. O Miguel Baião, 24 anos, de Serpa, é licenciado em Educação e Comunicação Multimédia, e actualmente Técnico de Actividades de Tempos Livres. E por fim o José Vargas, 21 anos, natural de Serpa e estudante do curso Gestão de Empresas.

 

Tribuna Alentejo:  O Meteoalentejo faz anos este mês. Como começou tudo e o que o levou a empenhar-se na construção de uma rede regional de estações no Alentejo?

Luís Mestre: O MeteoAlentejo surgiu em Janeiro de 2011, no entanto desde 2006 que eu registava os dados meteorológicos em Serpa ainda que com termómetros de mercúrio e pluviómetros artesanais. Foi por ter já todo esse histórico de dados que considerei que os mesmo deviam estar ao dispor do público em geral e foi assim que criei o, na altura blogue, MeteoAlentejo.

2011 foi também o ano em que instalámos a primeira estação profissional em Serpa. Depois mais tarde em 2014 essa primeira estação estava com alguns problemas e decidimos então lançar uma campanha de crouwdfunding para a compra de uma nova estação para Serpa de qualidade superior. A campanha foi um sucesso a atingiu 110% do objectivo inicial permitindo assim instalar uma estação de óptima qualidade em Serpa.

Depois tentámos estabelecer parcerias com as câmaras municipais da região para estendermos esta ideia a mais concelhos no entanto como não tivemos o apoio das autarquias tivemos de recorrer a outros meios, nomeadamente investimento pessoal da minha parte e uma nova campanha de crouwdfunding desta vez para Mértola e Amareleja. O que me levou e empenhar na criação desta rede foi em primeiro lugar o grande gosto pela temática e depois foi mostrar a quem pensa que manda em tudo que não é bem assim e que em parceria com as populações podemos fazer projectos interessantes, mesmo sem o apoio das autarquias.

Tribuna Alentejo:  Qual a abrangência do vosso projecto, isto é, em que zonas estão implementados? E onde querem chegar?

Luís Mestre: O projecto abrange 5 concelhos e 7 localidades do Baixo e Alto Alentejo, são elas Serpa, Herdade da Bemposta, Beja, Mértola, Amareleja, Moura e Marvão. Neste momento não está prevista a expensão deste rede a mais localidades, quer por questões financeiras, quer por questões de recursos humanos, uma vez que manter todos estes equipamentos a funcionar 24 horas por dia, 365 dias por ano requer uma grande capacidade de gestão e de articulação com todos os parceiros do projecto.

Tribuna Alentejo: Consideram-se serviço público? Como financiam a atividade?

Luís Mestre: Sim, consideramos que o trabalho que prestamos é serviço público, porque aliás a meteorologia é serviço de utilidade pública e o que nós fazemos é disponibilizar para o público em geral o estado do tempo em tempo real sem quaisquer custos para as pessoas. A actividade é financiada em grande parte por mim, pois quando tenho trabalho retiro sempre uma parte do meu salário e do orçamento familiar para manter este projecto vivo, depois a nível de equipamentos como já foi referido anteriormente alguns foram financiado em parte por crouwdfunding e temos ainda o caso de Marvão que foi financiado 50% pela Quinta Do Maral e o restante por mim. É portanto uma situação bastante complicada de gerir uma vez que quando me encontro em situação de desemprego o projecto fica sempre um pouco em risco.

Tribuna Alentejo: No vosso site é possível observar em direto o estado do tempo nas zonas onde os vossos sistemas operam. Têm uma ideia da quantidade de visitas que recebem por dia? Que necessidade satisfazem os utilizadores nos vossos serviços?

Luís Mestre: De facto as webcam´s que temos instaladas em conjunto com as estações meteorológicas acabam por ser um complemento bastante interessante principalmente para quem não se preocupa tanto com dados concretos e só quer saber se está a chover ou a fazer sol. 

Relativamente ao número de visitas depende muito do tempo que faz, se tivermos um período de tempo monótono como estamos a ter agora o número de visitas é muito reduzido porque as pessoas já sabem que o dia de amanhã será uma repetição do dia de hoje e por aí fora.

Por outro lado se tivermos tempo chuvoso com trovadas, tempo muito quente com temperaturas próximas dos 40ºC, ou temperaturas negativas como se esperam na próxima semana (18 a 22 de Janeiro) aí o número de visitas dispara e chegamos a ter mais de 1000 visitas por dia. Realço também o valor de seguidores que temos no facebook que é já próximo dos 12 000.

Este projecto e esta rede em concreto vem colmatar uma falha que existe na região e que é geral em especial no interior do país. Onde estão as nossas estações não existem estações do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, excepto em Beja, por isso as nossas completam as do Instituto pois a temperatura que está em Beja, por exemplo, é diferente da que está em Serpa e a precipitação acumulada ainda mais difere. Por outro lado o IPMA só disponibiliza os dados das suas estações hora a hora, enquanto nós disponibilizamos segundo a segundo. Existe ainda outro factor é que a manutenção dos equipamentos do IPMA deixa muito a desejar e acontece que em situações de tempo mais adverso quando faziam mais falta acabam por ficam inactivas.

Quando fala aqui na frequência de disponibilização de dados é normal que por vezes digam “sim as vossas actualizam segundo a segundo mas as do IPMA têm mais qualidade” , reconheço que os equipamentos do IPMA são de qualidade superior mas os nosso também são de qualidade de tal forma que lhe foram atribuídos o título “Estação Estrela de Ouro” pela entidade meteorológica Mundial Weather Underground.

Tribuna Alentejo: Sabemos que o vosso trabalho é desenvolvido por voluntários. O que mobiliza estas pessoas? E como as mobilizam?

Luís Mestre: Bem, eu penso que o que mobiliza os meus familiares e amigos que fazem parte desta equipa é em primeiro lugar a amizade que têm para comigo e por outro lado saberem que ao me apoiarem neste projecto estão a contribuir para a minha realização pessoal (risos).

Depois fora de Serpa existem também todas as entidades parceiras deste projecto que têm cada uma delas um rosto com o qual me relaciono mais nas questões necessário e básicas de manutenção dos equipamentos. Na Herdade da Bemposta, temos o sub director Nelson Correia, em Beja temos como parceiro o NERBE, em Moura a estação está na Escola Secundária de Moura tendo como parceiro o professor Sergio Aleixo, em Mértola na ADPM é o informático Vitor Gregório que efectua sempre as manutenção necessários, na Amareleja é o meu amigo Johnny Santos do Grupo Desportivo Amarelejense e em Marvão o Nuno Frade da Quinta do Maral. Uns com mais empenho e interesse meteorológico que outros mas o certo é que sem eles não seria possível ter esta rede montada.

Tribuna Alentejo: Consideram que o Alentejo precisa de uma entidade meteorológica própria?

Luís Mestre: Considero que cada região administrativa devia ter uma entidade/projecto como o MeteoAlentejo porque a rede do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, como óbvio, não consegue cobrir todo o território e assim estes projectos conseguem colmatar as falhas geográficas existentes e acabam por complementar a rede do IPMA.

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