3 Outubro 2016      16:41

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O CRESCENTE FUNDAMENTALISMO LAICO

Estamos prestes a concluir mais uma época estival. Vem aí o regresso aos hábitos diários, à rotina instalada pelas circunstâncias, à cadeira de secretária com a mesma disposição de sempre e à azáfama das compras do material escolar para o inicio do ano letivo.

Para trás, ficou amarrado, em modo pausa, o conjunto de inquietações e preocupações que muitos enfrentam. Contudo, há um episódio que me ficou cravado na memória, um daqueles que a comunicação social adora mexericar e repetir durantes os períodos noticiosos.

Falo dos vários incidentes despoletados nas praias francesas, onde a caça àquelas que não honravam os bons costumes seculares do país, eram sancionadas e humilhadas como punição. Por esta hora o leitor já deve saber do que falo, correto? A perseguição ao burkini.

Entre discussões politicas, desencadeadas para averiguar se o burkini deveria constituir um costume autorizado ou não, o que me deixou estupefacto foi o modo como toda esta ação foi conduzida e interpretada.

Entende-se perfeitamente que num contexto de grande assolo por ameaças terroristas, tendo em conta os eventos que sucederam no passado recente em França, exista a preocupação de identificar com exatidão toda e qualquer pessoa. Porém, um burkini é uma forma de dar às mulheres muçulmanas a hipótese de ir à praia, mantendo o perfil religioso. Permite-lhes usufruir de um prazer que por norma estaria vedado à mulher muçulmana, de acordo com o seu contexto cultural.

Por outro lado, a burqa, essa sim, em minha opinião, representa simbolicamente a privação da identidade e controlo sobre a mulher no vasto fundamentalismo islâmico, contudo, devemos ter sempre em consideração que cada lugar é um lugar, devendo olhar para os fenómenos sociais de cada cultura com distância e sem juízos etnocêntricos.

Não consigo defender aquilo que foi executado pelos agentes de decisão franceses. Não acredito que se possa defender o fundamentalismo religioso usando para isso, o fundamentalismo laico. Ora se o Estado é laico, não deve advogar por alguém, quando a laicidade serve para garantir o direito de praticar ou não uma religião.

Crer que às mulheres muçulmanas está confinada a falta de liberdade e que por isso se deve reivindicar uma maior emancipação e inclusão nas comunidades ocidentais, parece-me sensato. No reverso da moeda, crer que estas mulheres exerçam aquilo que o Estado as obriga a respeitar, anulando-lhes o direito à escolha do burkini, soa-me no mínimo a autoritarismo.

É esta obrigação, esta forma do Estado tentar colonizar os outros, de os libertar através da imposição de condutas que considera as mais corretas que resulta numa arrogância extraordinária, além de paradoxal num contexto democrático.

A obsessão por um fundamentalismo laico, transformou a França num ideal que não se revê mais na garantia dos direitos e deveres das fações minoritárias, e no respeito das liberdades das mesmas. Tornou-se antes um ideal mascarado e que alimenta cada vez mais nos seus cidadãos a islamofobia.

Vamos ter uma ideia desta dimensão referida atrás para o próximo ano de 2017, onde Sarkozy já anunciou que vai ser candidato às presidenciais francesas, sendo o ritmo do seu discurso pautado pela dureza contra os imigrantes. É esperar para ver o quão irão crescer as manifestações sociais a favor deste extremismo fundamentalista, que tem vindo a criar o medo nos cidadãos europeus em relação à diversidade.

Imagem de capa da huffingtonpost.fr

 

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