22 Agosto 2016      10:57

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(IR)RESPONSABILIDADE GOVERNATIVA E UM PAÍS A ARDER

"VISÃO PERIFÉRICA"

Vai-se dizendo por aí, que o poder representa um afrodisíaco delirante, que quem com ele se cruza e convive, perpetua um sentimento incógnito de prepotência: sobre tudo, sobre o social, sobre talvez o mesmo individuo que o exerce. É claro que, tendencialmente, o rejubilado se torna exacerbado, pois com o poder vêm as promessas, e a capacidade de concretizar essas mesmas promessas, dilui-se com as circunstâncias de governação que enfrenta.

É do meu entendimento que, quando alguém detém funções governativas, a que nível seja, acumula simultaneamente uma responsabilidade maior do que qualquer outro concidadão, pelo fato de ter que demonstrar, através de uma liderança baseada no exemplo moral, quais as razões que o levaram a estar na posição que ocupa. Foi apenas um meio para atingir um fim, a nível pessoal? O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, parece que lá conseguiu ver a nossa seleção a vencer a final do Euro 2016 contra a França a convite da Galp. Parece que o meu convite foi extraviado a meio do processo de entrega dos CTT...

Ou se para além desse meio para atingir um fim, quem exerce o poder é capaz de colocar uma dimensão metafisica e abstrata, como o sentido de Estado, à frente da nossa própria realização e concretização pessoal? É possível exercer o poder pela ignorância da sua própria existência ou o efeito que produz?

Eu acredito que existem bons exemplos, de boas gentes, de diversas “cores”, que continuam a dignificar a politica, a colocar os interesses dos outros acima dos deles mesmos, e que encontram na democracia uma forma de exaltar os desígnios de um conglomerado misto de diferenciadas diásporas sociais, repletas de visões tão distintas e incompatíveis sobre uma hipotética engenharia social perfeita e mecanizada, que afirmo - jamais existirá: somos totalmente falíveis!

Porém, se há coisa que não tolero, nomeadamente a quem detém o poder é, não se imiscuir da responsabilidade necessária para enfrentar, publicamente, todas as manifestações de desagrado demonstradas pela sociedade civil. Cresci, rodeado de livros de quadradinhos, heróis e vilões da Marvel, que arrisco dizer, foram os grandes pedagogos do meu cardápio de moral, de valores e da compreensão entre o bem e o mal.

Por certo conhecem esta citação, diretamente saída do Homem-Aranha, quando o tio Ben se dirige ao Peter e lhe diz: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.  Esta analogia não poderia assentar melhor, quando comparada com aquilo a que assistimos durantes as últimas semanas no nosso país: fogo, fumo e cinzas.

Sem dúvida que as condições meteorológicas anómalas ajudaram na propagação dos focos de incêndio e é verdade que o sistema de resposta não foi o mais adequado, mas onde estão as responsabilidades?  Ou melhor, quem é que dá a cara enquanto responsável?

Bem, tivemos uma Ministra da Administração Interna a gozar férias e a publicar fotos nos seus canais sociais (merecidas, entenda-se, mas desenquadradas), enquanto o país ardia e ninguém se pronunciava sobre a situação. Quando isso aconteceu, Constança de Sousa, apenas dá nota de que esperava maior solidariedade europeia... Eu pergunto-lhe que tipo de gestão governativa exerceu durante o mandato para que fosse esse o seu único plano de ação e contingência? Ou espera que a ajuda externa interviesse enquanto continuava de férias? Um pouco de bom-senso nunca fez mal a ninguém...

Entretanto, temos um Capoulas Santos que diz que este Governo antecipou algumas eventualidades, nomeadamente no que diz respeito aos planos de registo de proprietários e terrenos, no entanto, é claro, como se o assunto com ligeireza se devesse tratar, refere que a floresta não se reforma em oito meses. Certamente que se esqueceu dos tempos em que foi secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural, ou quando foi Ministro da Agricultura pela primeira vez, para que possamos questionar se passado tantos anos, agora é que decidiu, por fim, avançar com o estudo de reformas para a proteção das florestas... No PS é assim, a isenção de responsabilidade é latente em todos os governantes, a culpa passa sempre pelos outros.

Por fim, António Costa, fica perplexo quando verifica que o seu plano de prevenção, enquanto ministro da Administração Interna em 2005, não foi executado, mesmo quando era o PS de José Sócrates na liderança do país. Certamente que o esforço financeiro terá sido depositado para que o Engenheiro Sócrates fosse estudar para Paris.

Sócrates, o verdadeiro Sócrates, filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga, dizia que o verdadeiro sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância, pois bem, caro Governo: - Quando é que passam a responsabilizar-se por erros que são vossos? Erros que surgem do discurso banal, dos jogos de poder, da reputação e da riqueza pessoal?

Infelizmente, temo bem, que enquanto a culpa for dos outros, a essência da verdade, do bem e da felicidade de todos os cidadãos portugueses, fique condicionada por uma governação fechada à realidade e ao debate público sobre os grandes desafios da nossa geração. 

 

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